Em Good Fortune, Aziz Ansari assina o argumento e a realização e interpreta Arj, um trabalhador da gig economy cuja vida muda radicalmente depois de um encontro improvável com o anjo Gabriel, interpretado por Keanu Reeves. Gabriel tenta ensinar-lhe que dinheiro não é solução imediata e, no processo, acaba por trocar o corpo de Arj com o do seu patrão milionário, Jeff (papel de Seth Rogen). A confusão que daí resulta é o motor da comédia: choque de mundos, ameaças à identidade e lições inesperadas sobre responsabilidade, privilégio e comunidade. Keke Palmer e Sandra Oh completam o elenco principal com papéis que acrescentam calor e sentido humano à trama.
A premissa remete para clássicos do cinema de troca de vidas, mas atualiza o tópico com referências ao mundo laboral contemporâneo — cold plunges, clubes exclusivos e a precariedade dos trabalhos de entrega. Ansari tenta equilibrar fábula moral com gag moderno: há momentos que funcionam muito bem — gag físicas com timing afinado, e um Keanu que, como já era previsível, é a âncora serena que dá ao filme uma doçura discreta. Rogen traz o seu feitio cômico habitual e Ansari mantém uma presença simpática e humana no centro da confusão.
Onde o filme perde algum fôlego é na previsibilidade do arco: a conclusão é simpática, mas esperada. Algumas piadas falham o alvo, outras seguram a sala, e o tom oscila entre a sátira social e a comédia feel-good.
No capítulo comercial, Good Fortune não teve “sorte” — arrecadou cerca de 24 milhões de dólares com orçamento de 30 milhões, e estreia num período em que muitos títulos têm enfrentado bilheteiras fracas. Isso não anula o filme, mas ajuda a explicar por que é que, apesar do elenco forte, não se traduziu em sucesso financeiro imediato: o público dos últimos meses tem estado marcado por muitos falhanços de bilheteira e escolhas conservadoras.
A moral da história é simples e bem colocada: o dinheiro pode abrir portas, mas não resolve questões de sentido, pertença ou dignidade. Ansari quis fazer uma fábula contemporânea — com coração e algumas gargalhadas — e, nesse sentido, cumpre. Não é uma obra-prima, nem pretende ser; é um projecto honesto, bem interpretado e sobretudo simpático, que funciona melhor quando visto sem exigência, como um filme para desanuviar numa tarde tranquila.









