Originários de Toronto, os Kiwi Jr. conquistaram um lugar de destaque no indie rock contemporâneo através de uma fórmula muito própria: canções com guitarradas rápidas e uma lírica sarcástica pontuada por observações quotidianas. Formada por Jeremy Gaudet (voz e guitarra), Brian Murphy (guitarra, ex-membro dos Alvvays), Brohan Moore (bateria) e Mike Nelson (baixo), a banda canadiana construiu uma discografia impecável a navegar entre o jangle pop e a descedência Pavement clássica. Em 2026, após o maior hiato da sua carreira, o quarteto regressa com o seu quarto álbum de estúdio, Blowin’ Up, marcando a sua estreia na histórica editora K Records.
Blowin’ Up, gravado em Detroit sob a produção de Graham Walsh (membro dos Holy Fuck) e contando com contribuições de figuras como Kerri Maclellan (Alvvays), Joe Casey (Protomartyr) e Margaux Bouchaudon (En Attendant Ana), traz uma sonoridade visivelmente mais musculada, com percussão contundente e ruidosa. Aquele polimento eletrónico que dividiu opiniões no anterior Chopper (2022) é para esquecer; aqui, o grupo recupera o ataque direto das guitarras, injetando uma tensão palpável logo a abrir com a microfonia furiosa de “Hard Drive, Ontario” ou com as guitarras incandescentes de “Stage Names”. Esta instrumentação reflete uma banda a tocar com a garra de quem precisa de fazer cada segundo valer a pena.
Depois, no que diz respeito às letras, Jeremy Gaudet apura aqui o seu estilo conversacional e surrealista, cruzando referências desportivas, tiradas sobre bares de má morte e observações irónicas sobre a vida moderna. No entanto, em Blowin’ Up, o humor afável do vocalista ganha contornos mais amargos e frustrados. Seja na faixa-título — onde um órgão circense desagua num ritmo frenético — ou nas críticas aos desaires das apostas desportivas, transparece o duplo sentido do título do álbum: o desejo de explodir comercialmente em contraste com o risco iminente de um colapso mental.
O grande triunfo do disco reside no modo como Gaudet direciona esse sarcasmo para si mesmo. Em momentos mais vulneráveis como “Caught in the Wild”, o músico questiona o próprio sonho do rock ‘n’ roll e a rotina das digressões, admitindo que, no final do espetáculo, a banda é apenas um grupo de “palhaços” em cima do palco. É essa autoconsciência meio inesperada que faz de Blowin’ Up o trabalho mais denso, surpreendente e compensador dos Kiwi Jr. até à data.











