“Pulp: a film about life death and supermarkets”: documentário extraordinário sobre pessoas comuns

Eduardo Marino

Mais do que um documentário sobre um concerto de reunião, "Pulp: A Film About Life, Death & Supermarkets" é uma carta de amor a Sheffield e às pessoas que inspiraram uma das bandas mais inteligentes do Britpop.

Os documentários sobre bandas costumam seguir um guião previsível: imagens de arquivo, entrevistas, ascensão, queda, reencontro e aplausos finais. Pulp: A Film About Life, Death & Supermarkets – documentário de 2014, que agora estreia nas salas portuguesas – faz exatamente o contrário.

Realizado pelo neozelandês Florian Habicht, o filme usa o concerto dos Pulp na Sheffield Arena, em dezembro de 2012, como ponto de partida para contar uma história muito maior. Sim, há música. Sim, há nostalgia. Mas o verdadeiro protagonista é Sheffield, a cidade onde tudo começou, e as pessoas que continuam a dar sentido às canções da banda.

Porque os Pulp nunca foram os mais cool do Britpop. Nunca tiveram a arrogância dos Oasis nem a elegância pop dos Blur. Eram os observadores. Enquanto os outros olhavam para as estrelas, Jarvis Cocker olhava pela janela do autocarro. Escrevia sobre supermercados, vizinhos, frustrações, diferenças de classe, sexo, sonhos falhados e pequenas humilhações do dia a dia. É precisamente isso que tornou canções como Common People, Disco 2000 ou Mis-Shapes tão especiais: toda a gente conhece alguém que podia viver dentro delas.

Também a história da banda foge ao cliché do sucesso imediato. Os Pulp nasceram em 1978, quando Jarvis ainda era um adolescente, mas passaram mais de quinze anos a tocar para meia dúzia de pessoas antes de finalmente rebentarem em meados dos anos 90. Quando decidiram parar em 2001, a despedida foi quase silenciosa. Ficou a sensação de que a história tinha acabado sem ponto final. O concerto de Sheffield serviu precisamente para isso: fechar o círculo onde tudo começou.

Só que Habicht percebe rapidamente que filmar apenas um grande espetáculo seria desperdiçar a oportunidade. E, em vez disso, saiu à rua. Entra em mercados, cabeleireiros, cafés, lojas de peixe, supermercados e fábricas. Conversa com reformados, adolescentes, músicos de garagem, fãs de longa data e figuras tão peculiares que parecem ter saído diretamente de uma letra dos Pulp. Algumas entrevistas são tocantes, outras completamente absurdas. Há momentos em que nem sabemos se estamos a ver um documentário ou uma comédia britânica.

O mais curioso é que estas pessoas nunca parecem figurantes. São elas o coração do filme. Afinal, foram sempre elas o coração das canções.

E depois há Jarvis Cocker. É impossível não gostar dele. Continua a dançar como um boneco desarticulado, continua a vestir-se como o professor mais excêntrico da universidade e continua a ser um dos homens mais carismáticos que a música britânica produziu. Nunca precisou de berrar para encher um palco. Basta-lhe aparecer, levantar uma sobrancelha e dizer meia dúzia de palavras para prender toda a gente.

O concerto vai aparecendo aos poucos, quase como recompensa. Não interrompe a narrativa; faz parte dela. Quando chegam Common People, Babies ou Disco 2000 ou , percebe-se que aquelas músicas já deixaram de pertencer à banda há muito tempo. São património emocional de milhares de pessoas.

É essa a maior força do documentário. Em vez de transformar os Pulp em lendas intocáveis, lembra-nos que eles sempre cantaram sobre gente normal. E que, provavelmente, continuam a ser a banda perfeita para quem nunca se sentiu propriamente uma estrela.

No fim, percebe-se que Pulp: A Film About Life, Death & Supermarkets não é um filme sobre o regresso de uma banda. É sobre uma cidade, uma comunidade e a estranha beleza da vida comum. Ou, como diriam os próprios Pulp, sobre os common people. Like me and you.

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