No ecossistema insular do Atlântico, a Praia dos Moinhos prepara-se para voltar a ser o epicentro de uma das propostas mais singulares do circuito festivaleiro português. Nos dias 28 e 29 de Agosto, a localidade do Porto Formoso acolhe a edição de 2026 do Azores Burning Summer, um Eco Festival que há mais de uma década recusa as lógicas do consumo de massas para erguer uma celebração onde o rigor ecológico e a curadoria artística caminham de braço dado.
O festival, integrado na programação complementar de Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura (PDL26), afirma a força da descentralização cultural a partir da costa norte de São Miguel. Sob o pretexto de uma programação que este ano reforça a Lusofonia e a diáspora africana, reunindo no mesmo alinhamento nomes históricos como Lura, Paulo Flores e Tabanka Djaz, a par da pop sofisticada de Subida Infinita dos Capitão Fausto, da experimentação brasileira de Zé Ibarra e do kuduro elétrico dos Throes + The Shine, fomos conversar com o diretor Filipe Tavares.
Em entrevista, o responsável pelo festival detalha a responsabilidade de operar num território natural frágil sem esmagar a comunidade local e explica como a música continua a ser a ponte mais forte entre as margens do Atlântico.
Filipe, são mais de dez anos de Azores Burning Summer na Praia dos Moinhos, no Porto Formoso. Numa altura em que o debate sobre a pegada ecológica dos festivais de massas está no centro da indústria, como é que se gere a logística de um evento deste calibre numa ilha, mantendo práticas ecológicas reais e não apenas greenwashing?
A primeira decisão é não seguir o modelo de um festival de massas. Mantemos uma escala humana, adequada à Praia dos Moinhos, e colocamos a sustentabilidade no planeamento do evento, não apenas na comunicação.
Isso traduz-se no estacionamento periférico, no shuttle gratuito, na utilização de veículos elétricos, nos copos reutilizáveis, nos ecopontos, nos sistemas de refill, nos cinzeiros individuais, na gestão de resíduos e na eficiência energética. Cerca de 80% do investimento é realizado junto de empresas sediadas nos Açores, reduzindo necessidades logísticas e devolvendo valor à economia regional.
O festival foi também certificado pela SGS Portugal como “Evento Mais Sustentável”. Essa validação externa é importante, mas não significa que o trabalho esteja concluído. A sustentabilidade é um processo contínuo, feito de escolhas concretas, avaliação e melhoria. A redução de impacto ambiental está na base de toda a nossa atuação na produção do festival.
O isolamento e a insularidade trazem desafios óbvios ao nível dos transportes e da pegada de carbono. Como é que a organização calcula e tenta mitigar esse impacto inevitável, sobretudo quando trazemos artistas internacionais e público do continente e do estrangeiro?
A insularidade tem um impacto inevitável e seria pouco sério fingir o contrário. Trazer artistas até aos Açores implica deslocações aéreas e marítimas que não conseguimos eliminar.
A nossa prioridade é reduzir o impacto nas áreas em que podemos agir diretamente: recorrer a fornecedores regionais, controlar a escala do festival, diminuir transportes internos, criar estacionamento periférico e assegurar um shuttle gratuito com veículos elétricos. Também procuramos que a viagem resulte numa experiência cultural verdadeiramente ligada ao território, e não apenas num consumo rápido do destino.
A contabilização integral da pegada carbónica é uma área que queremos continuar a aprofundar. Preferimos reconhecer com transparência o caminho que ainda falta percorrer a anunciar uma neutralidade que não podemos demonstrar. Mitigar não significa apagar o impacto: significa medi-lo com maior rigor, assumir responsabilidade, reduzi-lo progressivamente e, sempre que possível, implementar medidas credíveis de compensação para as emissões que não conseguimos evitar.
A Praia dos Moinhos é um lugar de uma beleza natural ímpar, mas também um território frágil. Como é que se garante que a dinâmica turística gerada pelo festival não descaracteriza a comunidade local nem esmaga a paisagem?
A Praia dos Moinhos não é um cenário disponível para receber qualquer dimensão de evento. É a origem, a inspiração e o limite do festival. Por isso, não procuramos crescer a qualquer custo.
A escala, os horários, o som, os acessos e a circulação são pensados em função da paisagem e da proximidade dos moradores. O festival deve adaptar-se ao lugar, nunca o contrário. Ao mesmo tempo, procuramos envolver a economia regional e valorizar o Porto Formoso como uma comunidade viva, com memória, atividade piscatória, cultura do chá, gastronomia e vida rural.
Queremos atrair visitantes sensíveis ao território, não promover um turismo indiferente a ele. Se o crescimento começar a destruir a relação com a comunidade ou a qualidade da experiência, deixa de fazer sentido.
O cartaz de 2026 é uma celebração profunda da Lusofonia e das diásporas africanas. No dia 28 de agosto temos no mesmo palco a Lura, o Paulo Flores e os Tabanka Djaz. Qual foi a intenção estética e cultural por trás desta reunião destes nomes?
A intenção foi apresentar três expressões muito fortes e distintas da música africana de língua portuguesa. Lura traz Cabo Verde, a sua condição insular e uma música onde a morna, o batuque e o funaná dialogam com o presente. Paulo Flores transporta a memória de Angola, a palavra e o semba como forma de contar a vida. Os Tabanka Djaz afirmam o gumbé como elemento essencial da identidade da Guiné-Bissau.
Não procurámos criar uma imagem uniforme da Lusofonia. Pelo contrário, quisemos mostrar a sua pluralidade e a forma como estas músicas circulam entre ilhas, cidades e diásporas.
É uma noite com raízes muito profundas, mas também com dança, contemporaneidade e uma enorme capacidade de encontro. O Atlântico surge como aquilo que nos separa geograficamente, mas também como aquilo que culturalmente nos aproxima.
No dia 29, o espectro abre-se ao pop-rock renovado do álbum Subida Infinita dos Capitão Fausto, à experimentação do Zé Ibarra e à energia dos Throes + The Shine. Como é que esta diversidade dialoga com o público e com a própria identidade do festival?
A identidade do Azores Burning Summer nunca dependeu de um único género musical. Depende da coerência da viagem que propomos e da capacidade de cada artista acrescentar uma nova perspetiva.
Os Capitão Fausto são uma das bandas mais marcantes da sua geração em Portugal. Ao longo do seu percurso, construíram uma linguagem própria, investindo no Pop Rock com melodias cuidadas e letras que refletem o quotidiano. Têm uma forte ligação ao público e uma energia em palco que transforma as suas canções em momentos de celebração coletiva. Zé Ibarra traz uma nova música brasileira que cruza MPB, jazz, pop e experimentação, é um artista singular e muito cativante. Os Throes + The Shine unem Angola e Portugal numa energia explosiva feita de kuduro, rock e eletrónica.
São propostas diferentes, mas todas vivem do cruzamento, da reinvenção e da força do palco. Queremos respeitar o público que regressa todos os anos, mas também surpreendê-lo. Um festival mantém-se vivo quando preserva a sua essência sem ficar preso a uma fórmula.
O festival integra este ano a programação complementar da Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura (PDL26). De que forma é que esta descentralização cultural fortalece a posição dos Açores no mapa das artes em Portugal?
A integração na PDL26 dá maior visibilidade ao trabalho desenvolvido pelo festival, mas traz também a responsabilidade de representar o território com autenticidade.
É particularmente importante que uma Capital Portuguesa da Cultura não concentre toda a programação no centro urbano. O Azores Burning Summer acontece na costa norte de São Miguel, numa freguesia rural do concelho da Ribeira Grande, e mostra que a criação contemporânea pode acontecer com qualidade fora dos circuitos habituais.
Esta descentralização aproxima a cultura de novos públicos, valoriza diferentes comunidades e ajuda a afirmar os Açores para além da imagem de destino de natureza. O arquipélago é também música, cinema, literatura, pensamento e criação artística. Estar no mapa nacional das artes significa participar nesse diálogo a partir da nossa própria geografia e identidade, sem tentar reproduzir modelos exteriores.










