Lime Garden – Maybe Not Tonight (2026)

Francisco Pereira

Crítica ao segundo álbum das Lime Garden, 'Maybe Not Tonight'. Um disco sobre o caos dos 20 anos, separações em massa e a celebração de uma noite épica.

Para as Lime Garden, quarteto de Brighton, a “problemática” do difícil-segundo-álbum-quando-o-primeiro-é-um-sucesso foi resolvida com uma dose consistente de caos e honestidade. Lançado este mês, Maybe Not Tonight é o sucessor do elogiado One More Thing (2024) e nasce de uma coincidência infeliz, mas criativamente prolífica: as quatro integrantes passaram por separações amorosas quase simultâneas, um “efeito dominó” que serviu de combustível para um disco que se recusa a ceder ao luto e que antes, escolhe a celebração. Estruturado livremente como a narrativa de uma noite de festa, o álbum é a banda sonora perfeita para quem está nos vinte anos a tentar perceber o que fazer à vida, entre cigarros (“cigarros”…) de enrolar, contas bancárias no limite e desgostos de amor.

A grande cartada de Maybe Not Tonight é a forma como canaliza esta energia de uma noite de excessos para a sua estrutura. Se a primeira metade do disco é puramente hedonista, com o hino “23” a assumir a perda de controlo e a faixa-título a soar a um clássico perdido da chamada “indie sleaze”, a segunda metade mergulha na fase em que os demónios aparecem. O tema “Body”, por exemplo, explora a insegurança e o ciúme, enquanto que “Undressed” traz guitarras que lembram o estilo dos The Strokes para falar de reencontros amargos com ex-parceiros. É esta capacidade de navegar entre o humor e o coração partido que torna a escrita da vocalista Chloe Howard tão cativante e genuína.

Contextualizando no percurso do grupo, este álbum marca uma evolução sonora ambiciosa. A banda libertou-se da seriedade excessiva que muitas vezes assombra os segundos registos, para abraçar sintetizadores mais descontraídos e uma produção que roça o hyperpop, graças ao envolvimento da baterista Annabel Whittle e do produtor Charlie Andrew (conhecido pelo trabalho com os Wolf Alice). O som está mais “pop”, mais teatral e assumidamente mais ambicioso, sim. Em “Always Talking About You”, Howard confessa abertamente o desejo de ser rica e famosa, uma honestidade brutal que resume bastante bem o espírito do disco: as Lime Garden são aquelas badass girls que, depois de perderem tudo, decidiram sair de cena com as armas todas a disparar. Mas desengane-se quem pensa que o disco é apenas para o feminino. Este é, definitivamente, um disco para todos.

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