“DTF St. Louis”: sem truques, só escrita e atores a sério

Eduardo Marino

DTF St. Louis entra como mais uma série sobre relações falhadas e sexo fora do casamento, mas rapidamente muda de direção e surpreende pela positiva. Com três atores em estado de graça.

Criada por Steven Conrad, DTF St. Louis começa com um triângulo amoroso entre três adultos em crise — Jason Bateman, David Harbour e Linda Cardellini — ligado a uma app de encontros sexuais para quem quer sair da rotina. Parece setup de comédia ou de thriller fácil, mas não é. A série usa isso só como ponto de entrada para outra coisa: solidão de meia-idade, desejo mal resolvido e relações que já não sabem bem o que são.

A narrativa é não linear, repete momentos sob outros pontos de vista e vai preenchendo lacunas aos poucos. Com o espectador a tentar reajustar as peças constantemente. Não há twists plantados só para chocar — pelo contrário, quando a série revela alguma coisa, normalmente já lá estava, só não tinha sido vista daquela forma. Isso cria um efeito raro: em vez de surpreender pelo choque, surpreende pela coerência – um dos pontos mais fortes da série é este mesmo.

O tom também é difícil de fixar. Há humor, mas desconfortável. Há crime (um corpo aparece logo na premissa), mas não é tratado como motor de tensão tradicional. Várias críticas descrevem a série como uma espécie de “suburban noir”, com traições, segredos e pequenos colapsos emocionais a acontecerem em plena luz do dia, em vez de ambientes carregados.

Mas o que mais segura tudo isto são os actores. Bateman, Harbour e Cardellini não estão ali a “interpretar grandes momentos” — estão a habitar personagens que muitas vezes nem sabem bem o que estão a fazer. Isso nota-se especialmente em Harbour, cuja trajetória acaba por revelar uma fragilidade que a série vai construindo sem pressa. O elenco secundário — Richard Jenkins, Peter Sarsgaard — reforça essa ideia de conjunto sólido, sem ninguém a destoar.

Outra coisa que a distingue é a escrita. O diálogo pode soar estranho no papel — frases incompletas, repetições, desvios — mas em cena funciona porque se aproxima da forma como as pessoas realmente falam, com hesitação e ruído. Não há frases “bonitas” para fechar cenas. Há conversas que ficam meio suspensas.

E depois há o desvio mais importante: aquilo que começa como um mistério ou até uma história de adultério transforma-se gradualmente numa coisa mais pesada. A série caminha para um retrato de isolamento e falhanço emocional, mais do que para uma resolução narrativa clássica.

No fim, o que fica não é “quem fez o quê”. É perceber como é que estas personagens chegaram ali.

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