Aldous Harding sempre pareceu habitar um plano de existência paralelo, algures entre um castelo medieval e uma bolha flutuante no Pacífico. No seu quinto e mais fascinante álbum, Train on the Island (2026), a neozelandesa aproxima-se mais do que nunca da lente da câmara, mas, fiel ao seu estilo, recusa-se a focá-la. O sucessor do já distante Warm Chris é um estudo de personagem enviesado e, sem grandes dúvidas, o ponto mais alto de uma carreira construída sobre o poder do mistério e da metamorfose.
Harding é uma autêntica mestre da camuflagem. Em Train on the Island, ela transpira cada canção com uma voz distinta. Apresenta-se no disco tal como uma atriz experiente nos faz esquecer a sua identidade civil mal começa o primeiro verso. O disco, produzido novamente por John Parish, é um triunfo do minimalismo psicadélico, onde o espaço entre as notas é tão importante quanto a instrumentação. Mas é capaz de gerar oceanos de implicação emocional,
A abertura “I Ate the Most” define o tom intencional. Chega-nos uma confissão que soa a algo profundamente privado sobre traumas e memórias, mas entregue com uma distância quase clínica. Harding oferece o seu “eu” lírico apenas como um disfarce temporário, deixando-nos a sós com enigmas sobre corujas nuas e encontros com John Cale enquanto este come arroz.
O coração do álbum bate com mais força em “One Stop”, um single que romancia com uma estrutura pop antes de se dobrar em direções contraintuitivas e terminar num fade-out que pede por mais. O mote “Why wouldn’t I wanna meet you?” ressurge mais tarde em “San Francisco” como um mantra de desejo e desolação. Entre o lúdico e o assombrado (como em “Worms”), o disco equilibra o absurdo com emoções universais, provando que Harding consegue ser simultaneamente caprichosa e pragmática, como se vivesse num mundo com a saturação das cores no máximo.
Train on the Island encerra com a energia vibrante de “Coats”, um final que contrasta com a crueza disseminada do resto do registo. No final, o álbum parece um globo de neve agitado, um mundo contido, cintilante e profundamente estranho. Quer seja para ouvir durante uma crise existencial ou numa ida ao supermercado, a lógica fluida de Aldous Harding acaba sempre por fazer um sentido próprio e inabalável. É um triunfo determinado e meio selvagem que a reforça como uma das vozes (e compositoras) mais singulares e inclassificáveis (e brilhantes) da música contemporânea.











