O coletivo londrino Modern Woman lançou (e podemos dizer, finalmente) o seu álbum de estreia, Johnny’s Dreamworld. Editado no início deste mês pela One Little Independent Records, o disco é uma obra de imensa estatura que mescla, de forma magistral, o indie folk teatral, art-rock pós-punk e uma espécie de ópera-rock moderna.
Depois de terem impressionado a crítica com o EP Dogs Fighting In My Dream (2021), a banda dá agora provas de que é muito mais do que apenas mais um nome na nova vaga britânica (Dry Cleaning, 1000 Rabbits, Robber Robber, Man/Woman/Chainsaw, e muitos mais que temos vindo a falar nesta chafarica), apresentando uma proposta que parece navegar num barco próprio, à margem da indústria musical convencional.
No centro desta engrenagem está Sophie Harris, uma compositora e vocalista cujo estilo elegante e operático consegue transmitir um lirismo inteligente e, por vezes, visceral. A sua entrega vocal leva-nos a comparações com lendas como Patti Smith, Kate Bush ou Siouxsie Sioux. Harris tem a capacidade rara de moldar a voz a cada narrativa, movendo-se entre o registo falado e o canto refinado com uma segurança absoluta.
Johnny’s Dreamworld apresenta-se como um sonho febril, onde os pormenores mundanos do quotidiano se transformam em imagens cinematográficas e, por vezes até, perturbadoras. A faixa-título abre o disco com tambores de marcha e guitarras ruidosas que dão lugar a violinos elegantes, enquanto “Dashboard Mary”, um dos momentos altos do álbum, soa como uma colaboração perdida entre os Velvet Underground e Sharon van Etten.
Com apenas 30 minutos de duração, os Modern Woman oferecem um dos registos mais originais dos últimos tempos. O que começou como um projeto a solo de Harris floresceu numa banda completa capaz de equilíbrios improváveis com ritmos que se resolvem em melodias folk. Johnny’s Dreamworld é um disco arrepiante que recompensa quem procura música significativa e marcante. É, sem sombra de dúvida, um dos álbuns do ano.











