“Jury Duty: Company Retreat”: o prazer culpado de ver alguém ser enganado

Eduardo Marino

Se a primeira temporada era um tribunal onde a realidade era uma encenação, esta transforma o mundo corporativo num teatro ainda mais absurdo, com muitas gargalhadas garantidas.

A premissa de Jury Duty sempre foi uma espécie de experiência social disfarçada de comédia: colocar uma pessoa real no meio de um cenário completamente fabricado, rodeada de actores, e observar até onde vai a sua capacidade de adaptação. Na primeira temporada, esse laboratório era um tribunal, onde um homem acreditava estar a cumprir o seu dever cívico enquanto tudo à sua volta era encenado.

Em Company Retreat, disponível na Prime, a série muda de sala: sai do tribunal e entra num retiro corporativo de uma empresa fictícia de molhos picantes. A troca parece simples, mas é aqui que a ideia ganha um novo tipo de perversidade. Porque, ao contrário de um julgamento, o mundo das empresas já tem algo de teatral — reuniões motivacionais, jogos de equipa, discursos vazios. Não é preciso inventar tanto: basta exagerar ligeiramente o que já existe .

O novo “cobaia”, Anthony, acredita ter sido contratado como trabalhador temporário e atirado para um retiro anual onde tudo está em jogo — sucessões, vendas da empresa, egos frágeis e apresentações constrangedoras . Como na primeira temporada, todos à sua volta são actores e cada momento é coreografado ao milímetro. A diferença está na escala: aqui há mais personagens, mais subtramas e um ambiente mais expansivo, quase como se a série tivesse decidido sair do minimalismo e abraçar o caos organizado.

Há momentos em que a série acerta em cheio, sobretudo quando mergulha na cultura corporativa e a transforma num carnaval de absurdos plausíveis. Mas há também cenas muito bem metidas como um pedido de casamento recusado em público, o desaparecimento investigado de dezenas de pacotes de Doritos, um show de talentos que descamba para o caos…

E depois há Anthony. Tal como Ronald na primeira temporada, é ele que ancora tudo — não pela ingenuidade, mas por uma espécie de decência teimosa. A série continua a depender dessa figura central: alguém que não reage como esperamos, que insiste em ser razoável quando tudo à sua volta é ridículo. É aqui que Jury Duty mantém a sua identidade: não está interessada em humilhar, mas em observar. Uma coisa é garantida: há cenas que continuam a levar o espectador às lágrimas de tanto rir. Só isso já é uma enorme proeza.

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