Comecemos pelo óbvio: o fenómeno Michael não é um filme — é um evento cultural.
Estamos perante um monstro de bilheteira. O biopic de Michael Jackson estreou com cerca de 217 milhões de dólares a nível global, o maior arranque de sempre para um filme do género, esmagando referências como Bohemian Rhapsody . Mais impressionante ainda é o fosso entre crítica e público: cerca de 40% de aprovação crítica contra uns absurdos 96–97% do lado da audiência, um recorde absoluto para biopics. Já há muito que não havia um fosso tão enrome entre o gosto popular e os exegetas.
E talvez seja aqui que o filme começa verdadeiramente a fazer sentido.
Realizado por Antoine Fuqua, Michael escolhe uma via segura — ou, sendo mais direto, uma via higienizada. A narrativa termina em 1987/88, na era Bad, evitando deliberadamente tudo o que veio depois: acusações de abuso, julgamentos, o colapso público. Esta é a espinha dorsal da abordagem. O filme foi, de resto, reconfigurado por questões legais e pelo controlo direto do espólio da família Jackson.
O resultado é um retrato que muitos classificam como superficial, “plastificado”, quase um museu de cera em movimento . E, no entanto, há aqui um paradoxo interessante: aquilo que o filme evita é precisamente o que o torna comercialmente imparável.
Porque Michael não quer ser uma dissecação — quer ser uma celebração. E nisso, é praticamente irrepreensível.
Os números musicais são o coração do filme e funcionam como tal: são eletrizantes, coreografados ao milímetro, emocionalmente eficazes. Há relatos de salas inteiras a cantar e a dançar — uma experiência coletiva que raramente o cinema contemporâneo proporciona . Não é exagero dizer que o filme funciona melhor como concerto encenado do que como narrativa dramática.
Jaafar Jackson, sobrinho de Michael, encarna mais do interpreta. O filme usa as gravações originais, o que reforça essa sensação de presença fantasmática — não estamos a ver uma representação, estamos a revisitar um ícone.
Mas, como já vimos, há elefantes na sala. A ausência quase total de controvérsia levanta questões éticas inevitáveis. Pode um filme sobre Michael Jackson ignorar aquilo que mais marcou a sua perceção pública? Pode a arte escolher o silêncio? E, mais incómodo ainda: até que ponto estamos disponíveis para aceitar essa versão “sanitizada” porque a alternativa nos obriga a lidar com o desconforto?
Curiosamente, a própria estrutura do projeto denuncia essa tensão. Já se fala numa continuação, que poderá abordar fases posteriores da vida — mas fica a dúvida: haverá coragem para tocar nos temas mais sombrios, incluindo as acusações de pedofilia? Com a família diretamente envolvida na produção, a narrativa dificilmente deixará de ser controlada.
Outro detalhe estranho: Janet Jackson, figura central na família e na cultura pop, é praticamente invisível — nem presença no filme, nem nos créditos. Um silêncio que diz muito.
No fundo, Michael acaba por ser um espelho do nosso tempo. Vivemos numa era obcecada com o cancelamento, mas também com a nostalgia. Queremos responsabilização, mas também queremos dançar. Queremos verdade, mas só até certo ponto.
A verdade é que independentemente de tudo, a obra de Michael Jackson continua a ser de génio. Está entranhada na cultura, nas memórias, nos corpos. Cada canção é um fragmento de história coletiva. Cada passo de dança, um déjà vu emocional.
No fim, saímos da sala com uma sensação ambígua: entre o arrepio e a omissão, entre o fascínio e a dúvida.
Mas saímos — e isto é inegável — a cantar, numa catarse coletiva.











