“Half Man”: Richard Gadd e Jamie Bell dão um soco no estômago da TV

Eduardo Marino

Depois do terramoto de Baby Reindeer, o criador escocês regressa sem medo de falhar e entrega um thriller psicológico avassalador. A nova série da HBO usa a violência emocional para desarmar a masculinidade tóxica, provando que o talento de Gadd não foi um golpe de sorte.

Havia um elefante na sala da cultura pop global chamado Baby Reindeer. Depois do fenómeno avassalador que transformou o trauma pessoal de Richard Gadd num dos maiores sucessos da história recente da televisão, a pergunta que todos faziam era inevitável: conseguiria o criador escocês provar que não era um sucesso de uma única vez? A resposta chega com Half Man, e é um murro no estômago que dissipa qualquer dúvida. Gadd não teve sorte da primeira vez; ele tem, sim, uma capacidade invulgar — e quase cirúrgica — de dissecar a miséria humana. A fasquia parecia quase impossível de ultrapassar, mas esta nova obra mostra que o seu talento na escrita e na interpretação está longe de ser um acaso.

Se a sua estreia televisiva explorava a obsessão e os limites do abuso, Half Man vira o holofote para dentro, focando-se nas engrenagens invisíveis que moldam a identidade masculina. A premissa, embora envolta numa narrativa que roça o thriller psicológico, é um estudo de personagem sobre a vulnerabilidade sufocada pelo orgulho.

A série avança por terrenos pantanosos. É negra, desconfortável e violenta — não necessariamente pela quantidade de sangue no ecrã, mas pela crueza das situações emocionais. Gadd recusa-se a dar anestesia ao espectador. Onde outros criadores procurariam a redenção rápida das suas personagens para aliviar a tensão do público, esta história prefere habitar o conflito.

O grande trunfo da série reside na sua estrutura e na forma inovadora como escolhe contar a história. O argumento foge da linearidade previsível, desafiando constantemente o espectador com uma montagem que cruza o presente estilhaçado com os traumas fundacionais do passado. Quando julgamos ter antecipado o próximo passo ou decifrado o mistério, o guião muda as regras do jogo. Tudo faz sentido no final, mas o caminho até lá é pavimentado por surpresas genuínas que nunca parecem truques baratos de entretenimento.

Cada episódio traz diálogos que nos deixam com a certeza de que a série sabe exatamente o que faz. São conversas escritas com uma contenção impressionante, onde não há palavras desperdiçadas ou tiradas filosóficas artificiais; as personagens falam como pessoas reais presas em armadilhas que elas próprias ajudaram a construir.

No campo das interpretações, o projeto eleva a fasquia a um nível estratosférico através de um autêntico duelo de gigantes. Richard Gadd entrega uma performance despida de vaidade, encarnando a decadência física e mental com uma coragem rara. Ao seu lado, Jamie Bell surge como o contraponto perfeito, numa química tensa que ancora os momentos mais densos da narrativa, mostrando a contenção e a raiva contida de quem partilha os mesmos fantasmas.

O trabalho de casting merece um capítulo à parte, especialmente no que toca aos dois atores responsáveis por interpretar as versões mais jovens dos protagonistas, Stuart Campbell e Mitchell Robertson. Mais do que semelhanças físicas óbvias, a dupla jovem consegue replicar os subtextos, os tiques nervosos e o olhar partilhado, criando uma ponte psicológica perfeita entre a infância perdida e a idade adulta fragmentada. Se a justiça existir nos circuitos de prémios de televisão, haverá certamente distinções para toda esta gente.

Half Man não é uma série fácil de digerir, nem foi feita para consumo rápido de fim de semana. É uma obra que exige estômago e atenção. Ao assinar este segundo trabalho com tanta segurança, Richard Gadd estabelece-se não apenas como um sobrevivente que conta as suas histórias, mas como um dos argumentistas mais provocadores e necessários da sua geração. A fasquia estava quase impossível, mas ele acabou de a colocar ainda mais alta.

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