“The Invite”: O jantar mais desconfortável — e divertido — do ano

Eduardo Marino

Os melhores filmes sobre casamentos raramente falam de casamentos felizes. Falam de conversas adiadas, desejos mal arrumados e daquela pergunta que ninguém gosta de fazer: "E se estivermos apenas a repetir a mesma vida?" É precisamente aí que The Invite decide sentar-nos à mesa.

Quando estreou no Festival de Sundance, em janeiro, The Invite tornou-se imediatamente um dos títulos mais comentados da edição. As críticas renderam-se ao humor mordaz, às interpretações e, sobretudo, à forma surpreendentemente adulta como o filme aborda sexo, intimidade e monogamia. Não demorou muito até começar a surgir uma palavra normalmente reservada aos candidatos aos Óscares: prémios.

É o terceiro filme realizado por Olivia Wilde e aquele que, finalmente, parece consolidar a sua identidade como realizadora. Se Booksmart revelou um talento invulgar para a comédia e Don’t Worry Darling mostrou uma ambição visual superior ao próprio argumento, The Invite encontra um equilíbrio raro entre escrita, encenação e direção de atores. É um filme muito mais seguro de si.

A premissa não podia ser mais simples. Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) vivem um casamento que entrou naquela fase em que já ninguém discute porque ambos estão demasiado cansados. Quando convidam os vizinhos do andar de cima para um jantar, descobrem que Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz) vivem a relação de uma forma radicalmente diferente, assente numa abertura emocional e sexual que deixa o casal entre o fascínio, o desconforto e a vontade de fingir que nada daquilo lhes interessa. Claro que interessa.

A ideia vem do filme espanhol Sentimental, de Cesc Gay, mas o argumento de Will McCormack e Rashida Jones consegue fazer muito mais do que uma simples adaptação. Há um ouvido particularmente afinado para os silêncios constrangedores, as pequenas crueldades conjugais e aquelas frases que parecem inocentes até rebentarem a sala cinco segundos depois.

Também se percebe rapidamente porque é que Esther Perel surge como consultora do projeto. A psicoterapeuta, que há anos desafia as ideias convencionais sobre desejo, fidelidade e intimidade, nunca transforma o filme numa aula sobre relações. Mas nota-se a sua influência na forma como ninguém é tratado como vilão ou exemplo a seguir. O filme não toma partido entre monogamia e não monogamia. Está mais interessado em perceber porque é que tantos casais deixam de fazer perguntas um ao outro.

O elenco parece divertir-se tanto como o público. Seth Rogen troca o humor adolescente por uma vulnerabilidade inesperada. Edward Norton encontra um equilíbrio delicioso entre guru da intimidade e vizinho irritantemente confiante. Olivia Wilde oferece provavelmente a sua melhor interpretação até hoje, construindo uma mulher permanentemente dividida entre aquilo que deseja e aquilo que acha que deveria desejar. E Penélope Cruz faz aquilo que parece impossível: rouba cenas sem nunca parecer que está a tentar roubá-las. Há uma naturalidade desarmante na forma como transforma Piña na pessoa mais livre — e talvez a mais emocionalmente inteligente — da história.

Grande parte do filme decorre dentro de um apartamento. Podia parecer teatro filmado. Em vez disso, Wilde transforma cada divisão num campo de batalha emocional, recorrendo aos movimentos de câmara, aos olhares e ao espaço entre as personagens para criar tensão. É um daqueles casos em que a realização nunca chama a atenção para si própria, mas está constantemente a fazer o trabalho invisível.

Há muito humor, algum embaraço e conversas que provavelmente muitos casais gostariam de nunca ter. O mais curioso é que The Invite consegue falar de sexo sem voyeurismo e de relações sem cinismo. Um verdadeiro banquete de humor e drama, candidato a um dos melhores do ano.

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