Durante décadas, David E. Kelley construiu uma das carreiras mais improváveis da televisão. Foi ele quem nos deu Ally McBeal, Boston Legal, Big Little Lies, The Undoing e, mais recentemente, Presumed Innocent. Advogados, milionários, homicídios, tribunais, segredos de luxo. Tudo muito elegante.
Por isso, talvez ninguém esperasse vê-lo mergulhar numa história sobre uma jovem mãe solteira que abre uma conta no OnlyFans para pagar as contas…
Adaptada do romance de Rufi Thorpe, Margo’s Got Money Troubles acompanha Margo, uma estudante universitária que engravida depois de um caso com o professor casado. Sem dinheiro, sem plano e com um bebé ao colo, descobre rapidamente que a sociedade adora dar conselhos sobre maternidade, mas tem muito menos interesse em pagar a renda.
A solução surge através do OnlyFans. Mas a série tem a inteligência de nunca transformar isso numa provocação barata nem num manifesto. O que interessa aqui não é o choque. É a sobrevivência.
Num ano em que várias séries e filmes parecem finalmente interessados em olhar para o trabalho sexual sem moralismos automáticos, Margo’s Got Money Troubles destaca-se por uma razão simples: não está interessada em julgar ninguém. Nem a protagonista, nem os seus seguidores, nem as escolhas que faz quando o dinheiro desaparece e as opções começam a encolher.
Grande parte desse equilíbrio vem de Elle Fanning, numa daquelas interpretações que parecem fáceis apenas porque são extraordinariamente difíceis. Margo nunca é vítima, heroína ou símbolo de uma causa. É apenas uma pessoa a tentar sobreviver a uma sequência particularmente caótica de decisões. Fanning encontra humor, fragilidade e teimosia na mesma cena sem nunca parecer que está a representar.
À sua volta surge um elenco que parece montado por alguém a distribuir prémios. Michelle Pfeiffer é uma mãe emocionalmente desarrumada que oscila entre o desastre e a lucidez. Nick Offerman, longe da persona impassível que o tornou famoso, entrega talvez o papel mais tocante da série como um ex-lutador profissional a tentar reconstruir a relação com a filha. E Nicole Kidman aparece numa participação deliciosa que percebe exatamente o tom meio absurdo, meio sincero da narrativa.
O mais surpreendente é que Kelley (casado na vda real com Pfeiffer), tantas vezes associado a dramas de prestígio polidos até ao último detalhe, encontra aqui uma energia mais caótica e humana. Há episódios que parecem comédias familiares. Outros aproximam-se da sátira social. E alguns tornam-se inesperadamente emocionais sem anunciar o momento com violinos ou discursos inspiradores.
É também uma série sobre a economia da atenção. Sobre transformar a própria imagem em rendimento. Sobre a internet como mercado permanente.
Quando chegarem as conversas sobre prémios, seria surpreendente não encontrar Margo’s Got Money Troubles no meio delas. Especialmente nas categorias de interpretação. Porque esta não é apenas uma série sobre uma jovem no OnlyFans: é uma série sobre aquilo que acontece quando a vida adulta chega antes de qualquer manual de instruções.










