Durante quase três mil anos, A Odisseia de Homero foi recontada de inúmeras formas. Inspirou tragédias gregas, óperas, romances, banda desenhada e dezenas de adaptações cinematográficas. Mas nenhuma teve a ambição desmedida de Christopher Nolan. Depois de reinventar o filme de super-heróis com The Dark Knight, de transformar um thriller de guerra numa experiência sensorial com Dunkirk e de conquistar o Óscar com Oppenheimer, o realizador britânico escolhe agora aquele que talvez seja o maior texto fundador da literatura ocidental.
A aposta parecia tão fascinante quanto arriscada. Afinal, como adaptar uma obra feita de deuses, monstros, alegorias e poesia sem cair na fantasia convencional? A resposta de Nolan é surpreendente: não procura ilustrar Homero, procura traduzi-lo para a linguagem cinematográfica contemporânea.
O resultado é um filme gigantescobem à sua maneira.
Desde os primeiros minutos percebe-se que The Odyssey foi pensado para ser visto em IMAX. Não é apenas uma recomendação de marketing; é a forma como Nolan concebeu o filme. Rodado integralmente com câmaras IMAX de grande formato, a escala visual é esmagadora. O realizador utilizou cerca de dois milhões de pés de película, um feito técnico praticamente sem precedentes, construindo um dos projetos mais ambiciosos da história recente do cinema.
A dimensão da produção impressiona. As filmagens decorreram em Marrocos, Grécia, Itália, Islândia, Escócia e Estados Unidos, numa tentativa de encontrar paisagens reais capazes de recriar o universo descrito por Homero. Ao contrário de muitos blockbusters contemporâneos, Nolan prefere filmar em cenários físicos sempre que possível. As praias de Troia, as montanhas de Ítaca, o mundo subterrâneo de Hades ou a ilha de Circe respiram autenticidade porque existem realmente diante da câmara, complementados por enormes construções de estúdio desenhadas por Ruth De Jong. O resultado tem uma textura quase tátil, rara num cinema dominado por efeitos digitais.
A própria embarcação de Ulisses merece destaque. Em vez de construir uma réplica artificial, a produção recorreu ao Draken, um navio funcional inspirado em embarcações antigas, navegável em mar aberto, reforçando a obsessão de Nolan pela autenticidade física. A mesma filosofia estendeu-se ao guarda-roupa, que envolveu milhares de figurinos e centenas de artesãos especializados.
Mas toda esta grandiosidade serviria de pouco sem personagens convincentes. Matt Damon entrega provavelmente uma das interpretações mais maduras da carreira. O seu Ulisses está longe do herói invulnerável que tantas adaptações romantizaram. É um homem profundamente traumatizado pela guerra, consumido pela culpa e pela obsessão de regressar a casa. Damon encontra um equilíbrio notável entre liderança, fragilidade e exaustão física.
À sua volta, o elenco funciona quase sem pontos fracos. Anne Hathaway oferece uma Penélope muito mais ativa emocionalmente do que seria expectável, enquanto Tom Holland surpreende ao construir um Telémaco que cresce gradualmente ao longo da narrativa. Robert Pattinson rouba várias cenas com uma composição imprevisível, e Zendaya confirma uma presença magnética mesmo em sequências relativamente curtas.
Antes da estreia, porém, quase nada disto parecia importar. Durante meses, The Odyssey esteve no centro de mais uma guerra cultural alimentada pelas redes sociais. Algumas escolhas de casting foram imediatamente catalogadas como “woke”, sobretudo a presença de Lupita Nyong’o e de Elliot Page (antes, a atriz Ellen Page) em papéis ligados à tradição clássica. O debate rapidamente degenerou em discussões ideológicas muito antes de alguém ter visto o filme. Ironia das ironias, depois da estreia, a esmagadora maioria da crítica internacional praticamente ignorou essas polémicas, concentrando-se naquilo que realmente interessa: o filme.
E há muito para discutir. As grandes set pieces demonstram Nolan no auge da sua capacidade de construir espetáculo. A sequência do Ciclope é um exercício extraordinário de suspense espacial; o encontro com as Sereias transforma um episódio mitológico numa experiência quase hipnótica; a descida ao reino de Hades possui uma dimensão visual assombrosa; e o regresso a Ítaca culmina numa longa sequência de tensão crescente que recorda porque continua a ser um dos maiores mestres da montagem contemporânea.
Ao contrário de muitos épicos modernos, Nolan nunca perde de vista a dimensão humana da viagem. A verdadeira batalha de Ulisses não é contra monstros, mas contra a memória, o tempo e a identidade.
A banda sonora acompanha essa abordagem. Em vez de procurar apenas grandiosidade orquestral, Ludwig Göransson, detentor de três Óscares e a arriscar aqui o quarto, privilegia temas recorrentes que evoluem juntamente com o protagonista, alternando explosões sonoras com silêncios prolongados que amplificam o impacto emocional de várias sequências.
Nem tudo resulta na perfeição. Alguns diálogos continuam excessivamente expositivos, um problema recorrente na filmografia de Nolan. Certas personagens secundárias desaparecem cedo demais e algumas opções narrativas sacrificam episódios famosos do poema em benefício de uma estrutura mais coesa. Puristas de Homero poderão estranhar algumas simplificações e alterações dramáticas.
Mas talvez a maior surpresa tenha surgido fora do ecrã. Enquanto parte significativa da crítica portuguesa recebeu The Odyssey com evidente reserva e até algum desprezo, a imprensa internacional foi quase unânime no entusiasmo. Publicações como Empire, The Guardian, The Telegraph ou The New York Times classificaram-no como um dos melhores filmes da carreira de Nolan e um sério candidato aos Óscares. O filme estreou com uma aprovação de 96% no Rotten Tomatoes e uma receção igualmente entusiástica junto da comunidade do Letterboxd, tornando-se um dos lançamentos mais aclamados do ano.
Essa divergência levanta uma questão curiosa: estaremos perante um filme que a crítica portuguesa julgou de forma excessivamente severa ou simplesmente perante uma obra cuja ambição divide inevitavelmente opiniões?
Independentemente da resposta, tudo indica que The Odyssey será um dos maiores sucessos comerciais de 2026. Nolan continua a conseguir algo que poucos realizadores alcançam atualmente: transformar cinema de autor em acontecimento de massas.
Não é a adaptação definitiva da obra de Homero. Nem sequer é o melhor filme de Christopher Nolan. Mas é um dos mais ousados, um espetáculo verdadeiramente cinematográfico que recupera uma ideia cada vez mais rara em Hollywood: a de que um blockbuster pode ser simultaneamente inteligente, ambicioso e visualmente avassalador.
E, acima de tudo, lembra-nos porque razão alguns filmes simplesmente não nasceram para ser vistos numa televisão.











