Há filmes que se veem. “Tuner” também se ouve

Eduardo Marino

É raro um filme conseguir transformar o som na personagem mais importante da história. Em Tuner, cada porta que bate, cada buzina e cada nota desafinada contam tanto como os próprios diálogos. O suspense não nasce do que vemos, mas daquilo que o protagonista é incapaz de deixar de ouvir.

À primeira vista, Tuner parece querer recuperar um tipo de cinema que quase desapareceu. Um thriller de bairro, sem explosões nem perseguições impossíveis, onde o suspense nasce mais das pessoas do que da ação. Mas basta meia hora para perceber que Daniel Roher, o documentarista vencedor do Óscar por Navalny, não está apenas a brincar com o género. Está a afiná-lo para uma frequência muito própria.

O protagonista é Niki White (Leo Woodall), um antigo prodígio do piano que viu a carreira interrompida por uma condição rara: hiperacusia, uma sensibilidade extrema aos sons que transforma o quotidiano numa agressão permanente. Hoje ganha a vida a afinar pianos em Nova Iorque ao lado do veterano Harry Horowitz (Dustin Hoffman), um mentor afável que conhece cada tecla da cidade. Tudo muda quando Niki percebe que o ouvido absoluto que o afastou da música também o torna extraordinariamente eficaz… a abrir cofres.

É uma premissa que parece quase absurda, mas o curioso é que Roher a filma com um realismo desarmante. Nunca tenta convencer-nos de que Niki é um super-herói. Pelo contrário, o filme insiste em mostrar que o seu “dom” é também uma limitação. Cada buzina, cada alarme ou porta metálica torna-se uma experiência física quase insuportável. Poucos thrillers recentes utilizaram o desenho de som de forma tão inteligente. Aqui, ouvir é sentir. E, por vezes, sofrer.

É precisamente aí que Tuner encontra a sua identidade. O som deixa de ser apenas um complemento da imagem e passa a conduzir toda a narrativa. O espectador é colocado dentro da cabeça de Niki, partilhando a ansiedade provocada por ruídos que normalmente ignoraria.

Leo Woodall confirma aquilo que One Day e The White Lotus já deixavam adivinhar: é um dos atores mais interessantes da sua geração. O filme exige-lhe contenção quase permanente e ele evita sempre a tentação de dramatizar em excesso. Há um silêncio constante na sua interpretação que encaixa na perfeição com um homem que preferia ouvir menos o mundo.

Ao lado dele, Dustin Hoffman oferece um daqueles papéis que só os grandes atores conseguem tornar memoráveis. Harry podia ser apenas o velho mentor simpático. Hoffman transforma-o numa figura simultaneamente divertida, melancólica e profundamente humana. A relação entre os dois vale tanto como o próprio enredo criminal.

Também Havana Rose Liu, como Ruthie, evita ser apenas o interesse amoroso da praxe. A química com Woodall nasce de uma paixão comum pela música, e o filme tem o cuidado de tornar essa ligação credível. Os dois atores prepararam-se durante meses ao piano para que cada gesto parecesse verdadeiro, uma dedicação que acaba por se refletir na autenticidade das cenas musicais.

O argumento acaba por seguir caminhos relativamente previsíveis na segunda metade. Há momentos em que o thriller parece demasiado confortável dentro das convenções do género. Mas Roher compensa isso com uma realização discreta e uma rara confiança nas personagens. Nunca sente necessidade de aumentar artificialmente o volume da ação.

No fundo, Tuner é menos um filme sobre assaltos do que sobre talento desperdiçado, segundas oportunidades e a estranha ideia de que aquilo que mais nos limita também pode tornar-se a nossa maior ferramenta.

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