Aos 83 anos e com um dos legados mais ricos da história da humanidade, Paul McCartney recusa-se a assinar uma despedida solene ou a viver exclusivamente da curadoria do seu próprio mito. Seis anos após McCartney III, o lendário Beatle regressa em 2026 com The Boys of Dungeon Lane, o seu vigésimo álbum a solo. Gravado maioritariamente no formato de homem-banda e co-produzido pelo requisitado Andrew Watt, o disco com 14 faixas batiza-se a partir de uma rua em Speke, no subúrbio de Liverpool, servindo como uma viagem terna e assumidamente nostálgica à infância e juventude do músico.
Dentro deste novo trabalho coabitam duas facetas de McCartney, o romântico incurável que recorda os anos 40 e 50, e o eterno experimentalista audaz que descompõe a pop com a mesma irreverência de clássicos como Ram (1971). No lado mais autobiográfico e confessional, destaca-se “Days We Left Behind” (o single de avanço que evoca o ambiente fumarento do Cavern Club) e a acústica “Down South”, onde Paul recorda as conversas sobre guitarras com os seus antigos companheiros de banda, muito antes de “aprenderem a fazer o twist and shout“. O momento mais emotivo surge em “Home to Us“, um dueto com Ringo Starr que celebra com doçura uma infância humilde mas feliz.
Mas o “Macca” mais aventureiro e desalinhado também reclama o seu espaço. A abrir o alinhamento, “As You Lie There” transforma uma paixão de infância numa colagem sónica lo-fi com linhas de guitarra distorcidas e harmonias vocais sumptuosas. Já “Mountain Top” assume-se como a sua composição mais psicadélica desde a era de Sgt. Pepper, fundindo um cravo cósmico e referências a cogumelos mágicos com um solo de guitarra invertido. Outro grande triunfo é “Salesman Saint”, uma valsa em tom menor pontuada por arranjos de big band que homenageia a resiliência dos seus pais durante a Segunda Guerra Mundial.
The Boys of Dungeon Lane não pretende ser uma obra-prima conceptual ou um ponto final definitivo na carreira de McCartney, até porque o músico faz questão de lembrar em “Lost Horizon” que o mais importante é “viver o agora”. Não sendo um registo perfeito ou dotado da genialidade imbatível dos seus anos de ouro, além dos naturais desgastes humanos, é um álbum sólido, divertido e profundamente caloroso. Ouvir Paul McCartney continuar a arriscar e a moldar canções com esta vitalidade, em pleno 2026, é um privilégio raro e um testemunho tocante da sua paixão eterna pela música.











