Vinte e cinco anos após a revolução de Is This It (2001), os The Strokes continuam a carregar o fardo pesado de serem comparados com o próprio passado. No entanto, o seu sétimo álbum de estúdio, Reality Awaits (2026), dá uma resposta desarmante aos que ainda procuram o regresso aos hinos de garagem da juventude: o quinteto de Nova Iorque está mais vivo, descontraído e assumidamente bizarro do que nunca. Gravado na Costa Rica sob a alçada de Rick Rubin (que já tinha produzido o aclamado The New Abnormal de 2020), o disco troca a procura imediata pelo refrão por um caminho muito mais desafiante, imprevisível e em certo sentido, eufórico.
A grande chave para descodificar Reality Awaits reside na fusão entre os Strokes e o lado mais experimentalista e excêntrico dos The Voidz, o projeto paralelo de Julian Casablancas. O vocalista assume as rédeas com uma prestação vocal teatral, recorrendo amplamente a camadas de Auto-Tune (bem longe de serem unânimes), falsetes e grunhidos que oscilam entre a ironia e a vulnerabilidade. É um registo vocal propositadamente desorientador.
Em “Going Shopping”, o single de avanço que aborda o consumismo do capitalismo tardio, Casablancas canta que quer ser “um zombie de dois metros”, enquanto a contagiante “Going to Babble On” oferece a escrita mais sincera e comovente da banda em anos, lembrando o brilho dos seus melhores clássicos.
A composição melódica do álbum mostra-nos uma banda que recusa o déjà-vu e aposta em texturas inéditas, mas cujo caminho começou a ser desbravado no trabalho anterior. Por exemplo, em “Liar’s Remorse”, os pedais de efeitos transformam as guitarras de Nick Valensi e Albert Hammond Jr. em sopros que simulam metais; já a canção “Lonely in the Future” revela-nos uma secção rítimica, de Nikolai Fraiture e Fab Moretti com uma pujança a lembrar Queens of the Stone Age, e “The Fruits of Conquest” resgata o ambiente post-punk dos anos 80. O álbum não se coíbe de atirar farpas humorísticas à cultura pop e à crítica musical, com referências diretas a Harry Styles ou Anthony Fantano em “Lonely in the Future”, e acaba por manter também um tom lúdico mesmo quando as letras abordam a desilusão política e o colapso do planeta.
Apesar de alguns momentos mais sinuosos e menos focados, como a faixa de encerramento “Tyrants of the Mellow Moon”, o saldo final é extraordinariamente positivo e aliviante. Reality Awaits força-nos a desatar os seus nós e a aceitar os The Strokes como um organismo em constante evolução e que para a banda é profundamente libertador. Em vez de tentarem recriar a fórmula que os consagrou no início do milénio, os nova-iorquinos preferem abraçar o caos e a maturidade com personalidade, entregando o seu trabalho mais coeso, arriscado e divertido de há muitos anos a esta parte.











