Iceage – For Love of Grace & the Hereafter (2026)

Francisco Pereira

Crítica ao novo álbum dos Iceage, "For Love of Grace & the Hereafter". Os dinamarqueses regressam à urgência punk com novos grooves e texturas shoegaze.

Os dinamarqueses Iceage passaram os últimos 15 anos a expandir os limites do pós-punk, mas o seu sexto álbum de estúdio, For Love of Grace & the Hereafter, editado na semana passada, propõe um regresso invulgar às raízes cruas do início da carreira. Editado cinco anos após Seek Shelter, o disco beneficia claramente da recente aventura a solo do vocalista Elias Rønnenfelt (Heavy Glory). Em vez de repetirem a muralha de som habitual, os rapazes de Copenhaga regressaram ao estúdio isolado na floresta onde gravaram o clássico Plowing Into the Field of Love (2014) para assinar o seu registo mais livre, imediato e surpreendentemente dançável.

O álbum arranca em grande com “Ember”, uma faixa que equilibra o punk da juventude da banda com guitarradas que remetem para o rock alternativo americano dos Dinosaur Jr. A festa continua com a brilhante “Match Head Girl”, onde o grupo se mostra mais lúdico do que nunca, embrulhando a poesia crua de Rønnenfelt em ritmos que convidam à pista de dança. A grande reviravolta surge ao terceiro tema, “The Weak”, um autêntico motim country-punk que lembra o caos de garagem dos Black Lips, provando que o quinteto gravou estas canções como se as ideias estivessem a correr para salvar a vida.

Esta libertação sónica estende-se por caminhos nunca antes explorados pelos Iceage. Em “Mother-of-pearl”, a bateria saltitante e as guitarras afiadas criam um hino eufórico e estabelecem um contraste fascinante com a miséria na letra, que aborda temas duros como a toxicidade familiar e a dependência de drogas. Há também espaço para grooves arrastados e de inspiração baggy em “Tender Blades” e “Star”, enquanto “1835” funde o pós-punk com o psicadélico e o shoegaze. É esta viragem consciente em direção ao ritmo e à síncope que torna o lado B do álbum tão refrescante.

Antes do adeus, ainda há tempo para a energia contagiante de “Holy Water”, com um piano de brincar a serpentear por entre uma batida quase disco, e para o encerramento grandioso com “True Blue”, uma balada distorcida e envolta em paisagens shoegaze. For Love of Grace & the Hereafter é, quiçá, o melhor álbum da discografia dos Iceage. Ao deixarem os excessos de lado e ao abraçarem o abandono e o movimento, os dinamarqueses provam que mesmo as histórias mais sombrias e viscerais podem ser celebradas com pura libertação física.

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