Genesis Owusu parece ter-se cansado de falar por metáforas. O artista ganês-australiano, que conquistou o topo do panorama alternativo com os aclamados Smiling With No Teeth (2021) e Struggler (2023), decidiu arrumar os simbolismos e apontar as baterias diretamente à realidade. No seu novo trabalho Redstar Wu & the Worldwide Scourge, Kofi Owusu-Ansah assume o alter ego de Redstar Wu para assinar um manifesto político, tão importante nos dias de hoje, e que é o mais cru, direto e destemido da sua discografia.
Gravado no ambiente intimista de uma igreja convertida em Gales, ao lado do produtor Dann Hume, o álbum abre com a descarga elétrica de “Pirate Radio”, onde Owusu ataca abertamente figuras do topo do Silicon Valley e a toxicidade das redes, e estende-se por malhas fortíssimas de moshpit e pernas pelo ar, como “Stampede” e “Death Cult Zombie”. Se alguns críticos temem que a pop demasiado focada na atualidade envelheça depressa, a verdade é que o músico capta a história a ser escrita em tempo real, disparando contra arruaceiros da direita, racismo estrutural e apatia global.
A genialidade de Owusu-Ansah continua assente na sua capacidade camaleónica de saltar entre géneros sem que o disco pareça fragmentado. Há espaço para o funk lubrificado de “Hellstar” (com o norte-americano Duckwrth), para o indie-pop nostálgico de “Falling Both Ways” (com a neozelandesa Ladyhawke) e até para as batidas eletrónicas de “Big Dog”, que não destoariam dum registo dos Underworld. Na faixa-título, a mais densa do alinhamento, o músico despe a capa de entertainer e rima sobre a destruição global e conflitos geopolíticos como quem documenta o fim do mundo à janela.
Mas nem só de fúria se faz este retrato dos anos 2020. A meio do percurso, o single “Life Keeps Going”, enriquecido por uma viagem criativa ao Gana, funciona como um bálsamo dançável e otimista, enquanto temas mais calmos como “Situations” ou a terna “One4All” oferecem uma pausa num banco do parque urbano. Redstar Wu & the Worldwide Scourge é um murro no estômago mas, mais do que isso, é um reflexo profundamente humano dos nossos tempos.










