Não há como negar o óbvio. Há muita música ótima que se continua a fazer ano após ano e nós aqui, temos uma admiraçao muito grande por Kevin Morby. Ao longo de treze anos e sete álbuns a solo, o músico cimentou o seu estatuto como um dos mais meticulosos contadores de histórias do indie folk norte-americano. Em 2026, com o lançamento do seu oitavo longa-duração, Little Wide Open, o músico natural de Kansas City assina, provavelmente, a obra mais coesa, polida e deslumbrante da sua carreira. Pode ser o entusiasmo da novidade a falar mas, não nos parece.
Sob a produção cirúrgica de Aaron Dessner (The National), o disco equilibra o contentamento da vida doméstica e a ansiedade mortal através de canções profundamente enraizadas na paisagem e no imaginário do Midwest americano.
O álbum abre com “Badlands“, uma peça que desconstrói o cliché de que “o céu é um lugar na Terra” para o situar no espaço imperfeito e poeirento da América Central. A canção, impulsionada por leves arranjos acústicos, ganha uma dimensão quase sobrenatural com a participação de Justin Vernon (Bon Iver), que surge como um eco espiritual no meio de uma tempestade iminente. É este contraste entre o íntimo e o universal que dita as regras de um disco focado nas transições da vida e na passagem implacável das estações.
Apesar da impressionante lista de colaboradores de luxo que habitam o registo, que inclui nomes como Lucinda Williams, Meg Duffy (Hand Habits) e Katie Gavin (MUNA), o foco nunca se desvia de Morby. A sua escrita atingiu uma maturidade quase dylanesca, com oscilações entre o comentário social direto de “100,000” e a vulnerabilidade pop de “Javelin“, onde o músico questiona as suas próprias ansiedades sobre o futuro e a mortalidade. A fechar, “Field Guide For The Butterflies” conta com os coros radiantes de Amelia Meath (Sylvan Esso), para selar o álbum com um sentimento de renovação e resiliência.
Little Wide Open é um trabalho que recusa a pressa. Entre a desolação acústica de “Cowtown” e a beleza expansiva da faixa-título (com os seus magníficos oito minutos), Aaron Dessner ajuda a lapidar os ganchos melódicos de Morby sem nunca beliscar a sua essência de trovador desalinhado.
O resultado é um álbum luminoso e comovente, feito de canções que criam espaço no tempo, provando que Kevin Morby continua a ser um observador vital da condição humana e uma das vozes mais honestas do rock de matriz tradicional.











