Entrevista | Kevin Morby: “A música é um remédio para a saúde mental”.

Francisco Pereira

Kevin Morby está de regresso com o novo álbum 'Little Wide Open' e respondeu a algumas perguntas que lhe colocámos.

Kevin Morby sempre teve a capacidade rara de transformar a geografia americana em paisagens espirituais. Se em Sundowner nos levou pelas planícies do Kansas e em This Is a Photograph nos confrontou com a mortalidade à beira-rio, o seu novo trabalho, Little Wide Open (com lançamento esta sexta-feira), surge como o desfecho aguardado de uma jornada de introspeção. É um disco que respira com uma clareza renovada, fruto de uma colaboração estreita com Aaron Dessner, que desafiou Morby a abandonar os artifícios de estúdio e a apresentar-se de forma mais vulnerável do que nunca.

Nesta entrevista, o músico abre as portas do seu processo criativo e reflete sobre o papel da arte num mundo em constante sobressalto. Desde a utilização da imagética religiosa como ferramenta de cura até ao equilíbrio delicado entre a vida doméstica e o movimento perpétuo das digressões, Morby revela-se um artista em total sintonia com a sua visão. Entre menções a ícones como Lucinda Williams e momentos de leveza quotidiana com os seus cães, descobrimos um homem que, apesar de cantar sobre o luto e a saudade, continua empenhado em ser um raio de sol em tempos de turbulência.

Entrevista conduzida por Francisco Pereira.

Kevin, Little Wide Open tem sido descrito como a conclusão de uma trilogia que começou no Kansas com Sundowner. Sentes que este álbum é o destino final de uma longa jornada ou é apenas um lugar para recuperar o fôlego antes do próximo capítulo?

Acho que é apenas o início de um novo capítulo, quanto muito sinto que estou a fechar uma certa porta atrás de mim.

Desta vez trabalhaste com o Aaron Dessner. Ele é conhecido por uma produção muito detalhada, mas mencionaste que ele te “impediu de usar demasiados truques”. Como foi esse processo — despir as canções até que elas parecessem, como disseste, “nuas”?

Houve muitas vezes no estúdio em que dei por mim a sugerir que adicionássemos alguns truques de estúdio bombásticos e escolhas de arranjos densas, e o Aaron meio que me convenceu a não o fazer. Acho que o Aaron viu estas canções pelo que elas queriam ser, e sabia que eu tinha consciência disso, mas que talvez estivesse com um pouco de medo de estar mais nu do que o habitual.

O single “Javelin” fala sobre dar a volta ao mundo e regressar sozinho ao meio da América. Onde encontras mais beleza hoje em dia: no movimento constante das digressões ou no silêncio doméstico de Los Angeles e do Kansas?

Encontro-a em tudo o que mencionaste. Acho que o truque, para mim, é ter uma boa rotatividade entre viajar, estar em digressão e estar em casa. Adoro a vida doméstica, mas também adoro o movimento. Portanto, tudo com moderação, mas preciso de ter todas essas componentes.

Este novo álbum conta com convidados incríveis, como Justin Vernon e Lucinda Williams. Como equilibras estas colaborações de alto perfil com a natureza profundamente pessoal e vulnerável deste disco específico?

É uma boa pergunta. Acho que, às vezes, para transmitir as minhas emoções, preciso de um pouco de ajuda. Ter um convidado pode ajudar a criar uma constante e a emoldurar o que estou a fazer de uma forma um pouco diferente, se é que me faço entender.

Eu queria que a Lucinda soasse como a voz de Deus, porque, de muitas formas, a Lucinda é Deus! Precisava de criar o som de uma sirene de tornado e a voz do Justin veio-me à cabeça, etc. Em termos dos convidados neste álbum, todos surgiram naturalmente para as suas respetivas partes; tenho a sorte de ter relações pessoais com cada um deles e estou radiante por todos terem aceitado participar no disco.

Olhando para 2019, o teu álbum Oh My God foi uma exploração profunda e quase conceptual da religiosidade e do “divino secular”. Consideras que esse é o teu trabalho mais espiritual ou a espiritualidade simplesmente mudou de forma nos teus álbuns seguintes?

Acho que, no geral, esse é provavelmente o meu trabalho mais religioso, mas a imagética religiosa está certamente sempre a encontrar o seu caminho em qualquer coisa em que eu esteja a trabalhar.

Como agnóstico confesso, como abordas a utilização de símbolos religiosos para articular emoções humanas como o luto, o desejo ou o amor?

Ao crescer no Midwest, estás rodeado por imagética e palavras religiosas de temor a Deus em todo o lado para onde olhas. E, assim, o vocabulário de tudo isso fica meio que gravado no teu ADN.

Não acho que esteja realmente a cantar sobre Jesus Cristo metade das vezes que pronuncio o nome de Jesus, se é que me faço entender, mas adoro o som da palavra e como ela se sente, a sua forma. Têm sido ferramentas fiéis no meu cinto de utilidades de composição.

Escreveste “Beautiful Strangers” como um tributo às vítimas dos ataques em Orlando e Paris. Num mundo que parece estar num estado de crise constante, ainda sentes que a música tem o poder de oferecer cura ou é mais uma testemunha impotente de tudo isto?

Acho que serve para oferecer cura. Na minha experiência, a música é um remédio e é muito boa para a saúde mental. Tanto a escrevê-la como a consumi-la. Por isso, com uma canção como “Beautiful Strangers”, quis criar algo que pudesse, literalmente, ajudar as pessoas que estavam a sofrer.

De que forma o estado atual do mundo — as divisões políticas e as tragédias em curso — influencia a tua composição em Little Wide Open? Estavas a tentar criar um refúgio para o ouvinte ou um espelho da nossa realidade?

Não acho que estas canções sejam impactadas de forma lírica direta pela política atual. Acho que, se for o caso, apenas quero que este álbum traga uma sensação de alegria a quem quer que escolha ouvi-lo.

Dito isto, alguma da imagética em torno do álbum, como eu com o casaco da bandeira americana, pareceu-me importante. Para mostrar que sou um artista americano que está do lado certo da história. Também usarei os meus concertos e a minha plataforma para me manifestar contra a injustiça e ajudar quando e onde puder.

Muitos músicos têm falado sobre a dificuldade de manter uma carreira sustentável na era do streaming. Como artista que valoriza tanto a estética do álbum completo e do vinil, como vês a “desvalorização” da música nos formatos digitais?

Tento ver o nosso panorama musical atual como um momento entusiasmante. Há muito que precisa de ser resolvido, claro, mas gosto da forma como, de certa maneira, se criou uma cultura que é muito DIY (do it yourself). As pessoas podem fazer, lançar e promover a sua própria música sozinhas e acho isso muito empolgante.

As pessoas estão a tornar-se criativas e a fazer muito trabalho por si mesmas, que é o que um artista deve ter sempre de fazer. Na verdade, acho que as pessoas vão querer sempre comprar discos, ouvir música e ir a concertos. Talvez sejam as minhas últimas palavras famosas, mas faço isto há mais de vinte anos e, para mim, parece que cada vez mais pessoas continuam a ir ver música ao vivo, e está a ser criada mais música agora do que nunca.

Achas que as plataformas de streaming estão a forçar os músicos a criar canções mais curtas e mais “algorítmicas”? Como proteges a tua integridade artística contra essas pressões da indústria?

Acho que talvez sim. Mas a cultura sempre moldou a forma como as pessoas faziam ou não música, por isso acho que cabe ao artista perseguir a sua visão exatamente como quer, e mostrar apaixonadamente ao mundo por que razão fez o que fez.

Nos anos 90, a cultura popular fez os artistas pensar que precisavam de fazer discos de milhões de dólares, sobreproduzidos, em estúdios com um som piroso. No seguimento disso, tivemos artistas como Will Oldham e Wilco. Portanto, há sempre o pensamento popular e os artistas com uma visão real que mantêm o seu próprio rumo.

Depois de passar tanto tempo a explorar temas pesados como a mortalidade e o espírito, o que te traz riso ou uma sensação de leveza no teu dia a dia fora do estúdio?

Estar com os meus cães. Ir correr. Jogar ténis. Cozinhar. Ir à pesca com os meus pais.

Finalmente, com a digressão mundial a começar em breve, o que esperas que o público retire da sua primeira experiência com Little Wide Open?

Espero que possamos ser um raio de sol nestes tempos turbulentos!

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