Tratado pelo próprio como se pudesse ser o seu último registo de estúdio, Philadelphia’s been good to me (2026) traz uma agradável sensação de círculo perfeito à discografia de Kurt Vile. No seu nono álbum a solo, o músico assina uma autêntica carta de amor à sua cidade natal, que tanto dói de nostalgia como transborda afeto pela base que o acolheu ao longo de toda a carreira. Embora a sua ética de trabalho incansável desminta qualquer plano real de reforma, o tom de retrospetiva confere uma gravidade especial a este punhado de canções.
O passo do álbum mantém-se fiel ao registo relaxado e descontraído que se tornou a marca registada de Vile. Há uma ironia divertida na languidez de “99 BPM” e um raro fulgor rock no compasso arejado de “Chance to Bleed”. Pelo meio, o guitarrista abre espaço para experimentações espaciais na hipnótica “Red Room Dub” e para a delicadeza instrumental na suave “Piano for Sarah”. O grande trunfo do disco, porém, reside na entrega vocal de Kurt, que surge mais confiante do que nunca, envolvendo-se com uma vivacidade inédita nas suas já habituais e intrincadas linhas de guitarra.
O ponto fulcral do álbum chega com a monumental “99th song”. Ao longo de dez minutos, Vile constrói um retrato elíptico e de sonho sobre o seu quotidiano em Filadélfia, numa abordagem narrativa que evoca a envolvência de “I Dream a Highway” de Gillian Welch. Há quem possa argumentar que roça a autoindulgência, mas a verdade é que estamos perante a melhor e mais imersiva composição do disco. Philadelphia’s been good to me prova-nos que, mesmo quando finge querer abrandar, o lirismo despretensioso de Kurt Vile continua a ser um porto de abrigo obrigatório.











