Cola na Graça: Yes You Can Spray trouxe o primeiro mural internacional de paste-up a Lisboa.

Joana Merlini

O coletivo Yes You Can Spray promoveu a maior parede de paste-up de Lisboa no Caracol da Graça, reunindo dezenas de artistas nacionais e internacionais.

No Caracol da Graça, mais de trinta artistas juntaram-se numa parede só de papel e cola.

O primeiro mural internacional de paste-up de Lisboa já está na rua, no Caracol da Graça, ao lado do funicular da EMEL, na Rua dos Lagares. Durante um fim de semana, mais de dez pessoas colocam lado a lado trabalhos de mais de trinta artistas. O resultado é uma parede colorida, caótica e viva, organizada pelo coletivo Yes You Can Spray na Urban Creativity 

O paste-up é uma técnica de colagem urbana feita com papel fino e uma cola à base de farinha e água — económica, biodegradável, reversível e temporária.

É essa fragilidade que a torna tão forte: não é feita para durar para sempre, é feita para o momento.

Tudo começou com Vero, co-fundadora do coletivo e @jojo_stickers, que lançaram uma chamada aberta para artistas submeterem os seus paste-ups para a morada do Yes You Can Spray. A Jojo já vinha do @londonintpasteupfest onde aprendeu diretamente com Apparan, líder e grande referência do festival anual em Shoreditch, Londres . Em Barcelona Bcn Upfest, o movimento também cresceu, de uma forma mais crua e progressiva, com o apoio de Can Safari Tim Mash, @nymphamorphosis, @seclestyle e muitos outros artistas. Em 2025, Jojo teve o prazer de fazer parte de um evento com a parceria de Can Safari @acasaportuguesa_ , @redbullesp , @fritzkola_es, @garagebeerco onde também em conjunto com mais artistas e até DJ’s criou-se um mini paste up workshop fest ali mesmo na melhor loja de tintas de Barcelona.   

Mas foi em Londres que tudo começou, com Apparan, com quem Jojo aprendeu a técnica, a organização e a mentalidade de não esperar por ninguém para começar a fazer, a criar, a colar sem parar. 

Quando voltou, decidiu fazer o mesmo em Lisboa. E conseguiu com a toda ajuda de Vero do Yes you can spray, que também com o amor que tem pela streetart, abraçou este projecto sem pestanejar.

A parede fica no começo do Caracol da Graça, ao lado do funicular da EMEL, na Rua dos Lagares. Basta subir uns degraus para ver as cores todas à distância. Em Lisboa, que tem muros cheios de graffiti e murais grandes, nunca se viu nada tão grande, e só de paste-up. Foi mesmo a primeira vez numa escala desta dimensão. 

O Yes You Can Spray anda na rua há mais de quinze anos. Faz percursos por sítios que quase ninguém conhece de mão dada com Lisbon Street art tours , dá workshops a quem nunca pintou e organiza encontros de pintura (Jams) que transformam becos escuros e perdidos por Lisboa em sítios bonitos, cheios de cor e vida. A coletiva faz tudo sem fundos do Estado, embora a GAO permita que pintem ou usem paredes públicas. Mas a colectiva vive sem subsídios, nem marcas que façam de sponsors. Cada euro que entra volta direto para a rua e para os artistas.

Foi esta forma de trabalhar que tornou o evento possível. A ideia era simples mas gigante: trinta e muitos artistas, uns de cá, outros de fora, todos na mesma parede. Nada de hierarquias, só papel e cola, fazendo paste paste paste o dia inteiro.

O resultado ficou esta colorida networking wall, como @jojo_stickers gosta de a chamar, cheio de impressões, fotos, ilustrações, colagens e técnicas mistas palavras cores, tudo, um diário da cidade. A própria Jojo disse que a parede é o moderno “pedir um cigarro para começar uma conversa”, mas desta vez sem palavras. Esta conexão, dá-se à distância, onde, os artistas depois do jam, vendo nas redes, descobrem quem é o vizinho que está colado ao seu papel na parede bem juntos mas fisicamente cada um de um canto do mundo diferente. Tudo graças ao trabalho dos pastupers voluntários, que criam esta curadoria colectiva que mais se parece com uma actividade de team building: temos os da linha da frente a quem chamamos os wet crew e na linha de trás os dry crew. Muitos dos artistas tanto os voluntários ou os que submeteram os seus “pastes”, acabam por falar uns com os outros e muitos acabam mesmo por fazer colaborações.

A parede tem tantas camadas internas como externas e durante o fim de semana da paste up jam wall of fame, estiveram mais de dez pessoas a colar, e estão afixadas pela parede fora nomes como,  @jojo_stickers, @apparan,@mind.tha.cat @arthouseprojectlondon, @nymphamorphosis, @un_costal_de_huesos, @goncalomar1, @out iam, @bisner,@bcolors, @paulosar, @a.curious.creature, @fled_13bombingart, @lixsan, @breemakesart, @moami31, @mafaldamg, @mattia ronconi, @gcolors, @cmarie.pt  @apatmariano; @mind.tha.cat, @arthouseprojectlondon, @seth.otron.art, @bcolors, @bloody_republic, @cathrinaisthier, @clarafelix, @einsteincaller, @kisa, @___evilove___, @vez_streetart, @lücky gnomë, @messtiza, @numbersixprints, @mechamamdemel, @pastepasteup e muitos mais.

O paste-up desaparece com o tempo, com a chuva, com o sol, com o vento, mas deixa marca. Não fica para sempre e isso faz parte da magia, que tudo é temporário, e nada é permanente, a chuva desfaz a cola, o sol apaga as cores e a cidade vai tapando a parede que um dia foi colorida aos poucos.E é por isso que é tão forte este movimento, não é feito para um museu, é feito sim para um momento, para a rua, para as pessoas.

“Os cartazes de cola de trigo encarnam a liberdade artística”. 

Em Lisboa ainda estava por fazer. Agora já não está, e fica o convite da colectiva para mais artistas se juntarem para a próxima open call.

Esta parede trouxe uma nova vida ao Caracol e uma nova vida à cidade.

Partilha

TAGS