A Noite de Alaíde, o novo filme da realizadora Liliane Mutti, teve ontem a sua antestreia nacional no MIMO Festival, em Guimarães, com a presença da própria Alaíde Costa e da realizadora. O filme estreia em Portugal a 16 de julho, em simultâneo com o Brasil, distribuído pela Zero em Comportamento.
Sessenta anos depois de ter sido excluída do histórico Bossa Nova at Carnegie Hall, em 1962 — o espetáculo que apresentou o género ao mundo, com nomes como Tom Jobim, João Gilberto e Sérgio Mendes —, Alaíde Costa é finalmente o centro da história. Na época, era já uma das vozes fundamentais do movimento, tendo participado no disco pioneiro Chega de Saudade, mas não foi convidada para o concerto. Historiadores e a própria artista apontam o racismo estrutural da época e um mercado fonográfico que privilegiou uma estética associada a jovens brancos da Zona Sul do Rio, deixando de fora a mulher negra que ajudou a fundar a bossa nova.
O filme constrói o seu retrato através de quatro atrizes que a interpretam em diferentes fases da vida, de cenas animadas que recuperam o que os arquivos apagaram, e da voz e das músicas da própria cantora — muitas das quais ela própria compôs. Uma história que é também um acto de reparação histórica: situar Alaíde no seu papel fundador na Música Popular Brasileira, seguindo as pistas da bossa nova que, ao lado de Johnny Alf, levou do Rio de Janeiro para São Paulo. A heroína desafia, por fim, o último tabu imposto ao feminino: o idadismo. No palco, de pé, aos 90 anos, Alaíde continua a ocupar lugares onde não estava “autorizada”. A sua existência é a sua resistência.

* fotografia de Murilo Alvesso











