“Widow’s Bay” não veio para participar
Ninguém tinha Widow’s Bay como certeza absoluta quando a temporada de prémios arrancou. A série de mistério, terror e comédia da Apple TV somou 19 nomeações e foi subindo devagarinho nas previsões, com uma campanha bem oleada e o elenco sempre por perto nos eventos certos. No fim, a coisa não podia ter corrido melhor: melhor série de comédia, ator principal (Matthew Rhys), atriz secundária (Kate O’Flynn), ator secundário (Stephen Root), argumento e realização. A única categoria “grande” que ficou de fora foi atriz principal — mas aí nem sequer havia candidata elegível, portanto nem conta como derrota.
Com isto, a Apple TV conta com duas vitórias seguidas nesta categoria, depois de The Studio no ano passado. Ainda longe do reinado de cinco anos seguidos que a ABC teve com Modern Family, mas o suficiente para dizer que a casa tem olho para comédia.
Quanto a Hacks: 24 nomeações para a última temporada, apenas duas vitórias. Um resultado bem mais modesto do que se previa quando tudo isto começou. Ainda assim, Jean Smart não saiu de mãos vazias — venceu, pela quinta vez, atriz principal de comédia, um pleno perfeito em todas as temporadas em que foi elegível, e ficou empatada no recorde histórico de vitórias na carreira nos Emmys, com oito. Schitt’s Creek continua a ser a única comédia recente a levar o prémio de série na temporada de despedida — Hacks não conseguiu juntar-se a esse clube restrito.
Matthew Rhys ganhou duas vezes na mesma noite
Se há um nome para levar desta cerimónia, é o de Matthew Rhys. Venceu ator principal em duas categorias diferentes: minissérie, por The Beast in Me (ao lado de Claire Danes), e comédia, por Widow’s Bay. Nunca ninguém tinha feito isto antes numa única gala. Junte-se a isso a vitória de 2018 em drama, por The Americans, e o ator escocês (que fez questão em falar da sua terra natal e fez um agradecimento na sua língua) já tem três categorias de protagonista no currículo. Não é sorte, é currículo.
No drama, continua tudo na mesma (e está tudo bem assim)
The Pitt voltou a levar melhor série de drama, repetindo o feito do ano passado — desta vez a bater Pluribus, depois de no ano anterior ter batido Severance, ambas séries da Apple TV com nomes de uma palavra só. Noah Wyle também repetiu, ator principal de drama, sendo aliás o único nomeado dessa categoria específica.
As restantes categorias de interpretação em drama, essas sim, andaram bem mais distribuídas. Rhea Seehorn finalmente arrecadou o prémio de atriz principal, por Pluribus — a série de ficção científica de Vince Gilligan (o mesmo de Better Call Saul), onde interpreta uma romancista viúva a braços com o fim do mundo tal como o conhecemos. A vitória tem sabor a justiça tardia: Seehorn tinha sido nomeada duas vezes por Better Call Saul sem nunca ganhar, série que detém – já agora, muito injustamente – a pior sequência de derrotas na história dos Emmys.
Allison Janney levou atriz secundária de drama por The Diplomat, à frente de um pelotão de quatro nomeadas de The Pitt (incluindo a vencedora do ano passado, Katherine LaNasa). Tom Pelphrey ficou com ator secundário por Task, batendo três colegas de elenco também de The Pitt. Este fenómeno — o elenco gigante de The Pitt a roubar votos a si próprio — já tem nome de fama entre quem acompanha estas coisas: o “Pitt Split”. Só Ernest Harden Jr. escapou incólume, vencendo ator convidado nos Creative Arts Emmys da semana anterior.
Nas categorias de escrita e realização de drama, Vince Gilligan levou o argumento por Pluribus, e Saul Metzstein a realização por Slow Horses — vitória construída à base de paciência, batendo The Pitt, The Gilded Age e o próprio Pluribus.
“DTF St. Louis” aparece e estraga a festa a “Beef”
Na categoria de minissérie, dava-se como assente que a segunda temporada de Beef repetiria o sucesso da primeira, que tinha aberto uma sequência de vitórias da Netflix continuada por Baby Reindeer e Adolescence. Não foi isso que aconteceu. Com 16 nomeações, Beef acabou ultrapassado por DTF St. Louis, da HBO, puxado pelo trio Jason Bateman, David Harbour e Linda Cardellini. Harbour e Cardellini bateram os concorrentes de Beef, Charles Melton e Youn Yuh-jung, nas categorias secundárias, e a série ainda arrecadou realização, argumento e, por fim, melhor minissérie — travando de vez a sequência de três anos seguidos da Netflix nesta corrida.
Colbert fecha a loja com chave de ouro
Depois de os Emmys terem fundido as categorias de talk show e variedades numa só — agora com espaço para mais do que um vencedor —, muita gente achou que seria finalmente a vez de Jimmy Kimmel se juntar a Stephen Colbert no lote dos premiados. Não aconteceu. The Late Show With Stephen Colbert venceu sozinho, fechando em beleza a longa história do formato criado por David Letterman há mais de três décadas. Colbert, já agora, tinha apoiado publicamente a candidatura de Kimmel antes da cerimónia — gesto bonito, sem efeito prático. Last Week Tonight With John Oliver ficou, pela primeira vez em anos, sem qualquer prémio nesta gala.
Hargitay ao leme
Quem conduziu a noite foi Mariska Hargitay, a eterna protagonista de Law & Order: SVU, num número de abertura tão exagerado que quase dá a volta e se torna simpático. Ao longo da cerimónia, fez piadas sobre a longevidade da sua própria série, entrou em sketches e mostrou-se surpreendentemente à vontade com o registo típico deste tipo de apresentação — nada mau para quem não é comediante de ofício. O ritmo da noite foi irregular, com um final esticado por Woody Harrelson e Matthew McConaughey a parecerem preencher tempo, mas Hargitay segurou a energia até ao fim.
A moral da história
Com os Emmys 2026 arrumados na gaveta, já se prepara a temporada 2026-27, com o regresso de Harry Potter e Blade Runner e novidades de Sharon Horgan e Mike Flanagan. Mas fica a lição desta edição: nada está garantido, como provou a reviravolta de Widow’s Bay sobre Hacks, e The Pitt segue como favorito claro para repetir em 2027 — desde que consiga resolver o seu problema crónico de dividir votos entre o próprio elenco.











