Unsafe Space Garden – O Melhor e o Pior da Música Biológica (2026)

Francisco Pereira

O novo disco dos Unsafe Space Garden, O Melhor e o Pior da Música Biológica, é uma jornada terapêutica com coros comunitários e sotaque português.

Há uma banda que são uma especie de ovni que orbita entre Guimarães e uma qualquer estratosfera imaginada. Os Unsafe Space Garden chegam ao quarto longa-duração, O Melhor e o Pior da Música Biológica, com lançamento dia 4 de Março de 2026, e num momento em que a banda já consolidou um percurso singular dentro da nova música alternativa nacional. Depois de Bubble Burst (2019), Guilty Measures (2020) e Bro, You Got Something In Your Eye – A Guided Meditation (2021), e do mais recente WHERE’S THE GROUND? (2023), o sexteto aprofunda agora uma viragem que vinha a ganhar forma: a afirmação do português como matéria-prima central do seu universo sónico.

O projecto nasceu em 2018 pela mão de Nuno Duarte e Alexandra Saldanha, dois criadores cuja trajectória cruza formação autodidacta, estudos em Som e Imagem e um trabalho consistente com comunidades, muito centrado na tradição oral. Essa dimensão nunca foi um mero adereço conceptual e sente-se de forma particularmente orgânica neste novo disco. A colaboração com os Alunos de Música da Universidade Sénior de Moreira de Cónegos em “Mais Uma Voltinha” não surge como gesto decorativo, mas como extensão natural de um percurso que inclui iniciativas como o Aldear ou outros projectos de ligação ao território. Há aqui uma ideia de arquivo vivo que deixa de ser pesquisa paralela e passa a integrar o próprio ADN das canções.

Se o primeiro avanço, “FKNKU”, apareceu em Outubro de 2025 como um pequeno furacão eléctrico — directo, desconfortável, quase catártico —, “Mais Uma Voltinha” apresenta o outro lado da equação: um bálsamo amplificado por vozes em uníssono, um “virou” que funciona como ponto de recomeço. Essa tensão entre embate e cura parece estruturar todo o disco. O Melhor e o Pior da Música Biológica assume-se como um álbum terapêutico no sentido mais literal da palavra: não no registo etéreo de auto-ajuda fácil, mas como espaço de confronto com fragilidades, solidões e alienações, seguido de uma tentativa honesta de reconstrução. É música que aceita a queda, mas insiste no levantar.

A banda mantém o seu vocabulário psicadélico de cores garridas, onde distorções e batidas disruptivas convivem com uma sensibilidade pop que nunca perde de vista a melodia. A novidade está menos na estética e mais na ancoragem cultural. Ao integrar coros comunitários e ao mergulhar sem reservas na língua materna, os Unsafe Space Garden transformam o disco num manual de sobrevivência emocional com sotaque português. Não é um tratado académico sobre o ser humano, mas um guia prático para a vida quotidiana: aceitar embates (“A Vida Não É Uma Merda”), reconhecer limites (“Sítios”), abraçar novas oportunidades e celebrar a possibilidade de renascer “mais uma vez. Só mais uma.”

Este quarto álbum soa a maturidade afirmada. Depois de passagens por palcos como o Primavera Sound Porto, Tremor ou MIL, e com concertos internacionais anunciados para o SXSW e o The Great Escape, o colectivo não abdica da sua dimensão expansiva, mas parece agora mais interessado em aprofundar do que em provar. O Melhor e o Pior da Música Biológica não mostra ser uma tese definitiva sobre a condição humana; prefere antes funcionar como consulta regular, dessas que não resolvem tudo de uma vez, mas nos deixam um pouco mais leves à saída. E, nos dias que correm, isso já é uma forma bastante séria de resistência.

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