“A Knight of the Seven Kingdoms”: a história de um herói improvável

Eduardo Marino

Durante anos, o mundo de Game of Thrones era feito de reis, profecias e destinos inevitáveis. Esta série aparece para lembrar que a maioria das pessoas só está a tentar chegar ao dia seguinte sem morrer.

A Knight of the Seven Kingdoms é o segundo spin-off de Game of Thrones, mas podia ser confundido com uma resposta irónica à grandiosidade da série original. Onde antes havia batalhas, dinastias e discursos sobre poder, agora há poeira, estradas e um cavaleiro que ninguém conhece.

A história segue Dunk, um cavaleiro sem nome, sem estatuto e sem grande talento político, e Egg, o jovem escudeiro que o acompanha. A sua relação é construída menos sobre hierarquia e mais sobre necessidade mútua. Dunk é maior, mais forte e supostamente o adulto, mas muitas vezes é Egg quem observa melhor o mundo e percebe as implicações do que acontece à sua volta. Há uma inversão subtil de papéis: o cavaleiro protege fisicamente, o escudeiro protege simbolicamente.

Egg (o principal twist da série acontece com esta personagem) traz consigo uma inteligência, uma educação e uma consciência do sistema que Dunk nunca teve, enquanto Dunk oferece algo mais raro naquele universo — uma forma de integridade que não depende de estatuto. O que começa como uma relação funcional vai-se transformando numa ligação marcada por lealdade e reconhecimento silencioso, onde ambos encontram no outro algo que lhes faltava: um lugar.

Não há aqui ambição de conquistar o mundo. Há fome, desconforto, pequenos enganos e encontros ocasionais com figuras que pertencem a um sistema muito maior do que eles. Pela primeira vez neste universo, o foco não está nos que mandam — está nos que sobrevivem.

É uma mudança radical. Enquanto House of the Dragon ainda mantinha o fascínio pelas famílias poderosas e pelas suas disputas internas, esta nova série afasta-se desse centro. O poder existe, mas está distante. É algo que se observa de longe, não algo que se controla.

O tom também é inesperado. Há humor, muitas vezes à custa da falta de jeito de Dunk ou da sua tentativa constante de parecer mais competente do que realmente é. Não é humor cínico, nem sarcasmo moderno. É algo mais simples: o humor de alguém que está fora do lugar e sabe-o.

Isso torna a série mais humana. Dunk não é um estratega, nem um escolhido. É apenas alguém que tenta fazer o que considera certo, mesmo quando não tem os recursos, o estatuto ou a inteligência política para o fazer bem. Isso cria uma tensão diferente. O risco não é perder um trono — é perder a dignidade, ou simplesmente não ter onde dormir.

Ao reduzir a escala, a série ganha algo que a original raramente tinha: tempo para observar. Há menos urgência. Menos necessidade de provar importância. O mundo continua a ser perigoso, mas já não gira em torno de eventos históricos. Gira em torno de decisões pequenas, quase invisíveis.

Talvez por isso muita gente diga que esta é a série ideal para quem nunca se ligou verdadeiramente a Game of Thrones. Não exige investimento em linhagens complexas nem recompensa o conhecimento prévio do universo. Funciona por si, precisamente porque não tenta competir com o que veio antes.

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