Entrevista | Baby Suicida: “Há algo de bonito em ver a música tradicional como uma coisa onde ir buscar, mas não uma coisa necessariamente sagrada.”

Vasco Reis

O coletivo lisboeta Baby Suicida lançou-se no ano passado no panorama da música nacional com um som que mistura influências indie atuais com música tradicional portuguesa e desde já contam com nove singles publicados. O trio composto por Francisco Castro, Francisco Fernandes e João Sanches falou-nos sobre o processo criativo da banda, a relação com a tradição portuguesa e o mais recente single, “Santa Companha”.

De onde surgiu o nome Baby Suicida?

Francisco Castro: Estávamos à procura de um nome feminino. Lançámos para o ar também Donzela Diesel, música do Rui Veloso, mas achámos giro que o imaginário fosse o de um nome feminino.. Nós tratamo-nos por Baby Suicida, mas acho giro a ideia de ser “A Baby Suicida”.

Como é que vocês se conheceram e começaram a tocar juntos?

João: Eu e o Francisco temos um passado comum. Nós tivemos numa outra banda chamada Neon Sun há cerca de 10 anos e foi aí que nos conhecemos. Entretanto passaram vários anos sem fazermos música juntos e em 2024 começou a surgir a ideia de juntar um grupo. Depois conheci o Francisco Fernandes através de amigos em comum e decidimos juntar-nos com mais dois amigos, começámos a ir para o estúdio e aos poucos foi surgindo a ideia e a vontade de fazer músicas originais.

De onde vem o vosso interesse pela música tradicional portuguesa?

Francisco Fernandes: Acho que o mais importante é que nós apreciamos esse tipo de música, sempre gostámos, portanto isso acaba por fazer com que a queiramos replicar de certa forma.

Francisco Castro: Eu que sou de Lisboa, a minha interação com a música tradicional portuguesa sempre foi um pouco distante. Era quase um mistério para mim e algo que tinha curiosidade em explorar. 

João: Para mim remete para a infância. Cresci com romarias e festas tradicionais e também com a ligação à aldeia dos meus avós, perto de Monsanto. Isso acabou por influenciar alguns dos sons e temáticas que exploramos. Eu e o Francisco Castro também nos aproximámos através de discos que ouvíamos em casa, como Rio Grande, Vitorino ou Rui Veloso.

O vosso som nasceu muito da experimentação com os meios que tinham disponíveis. Ainda trabalham dessa forma ou hoje já entram em estúdio e em composição com ideias mais definidas?

Francisco Castro: Geralmente nós temos uma música guitarra/voz e não temos uma ideia muito definida de onde é para ir e à medida que vamos gravando vamos sempre construindo e cada vez apontando mais para uma coisa e quase todas as nossas produções acabam por ter um adufe porque tem um som muito fixe e temo-lo à disposição, então aquilo que está à nossa volta acaba por afetar muito onde vamos parar.

Trabalhando com referências tão ligadas à música tradicional, como é que encontram o equilíbrio entre homenagem e identidade própria?

Francisco Castro: Creio que em parte a nossa ignorância de muita coisa nos ajuda. Não temos um conhecimento muito profundo da música mais tradicional, temos uma ideia geral, mas não temos o conhecimento académico e muitas vezes não tivemos sequer inseridos nessas culturas. Então, quando vamos buscar as coisas, naturalmente temos de encher muitos buracos com a nossa intuição e só por causa disso eu acho que já se afasta muito do que era o original e entra aí aquilo que nós somos. 

Vivendo vocês num contexto mais urbano e acelerado, acham que foi precisamente esse contraste que vos aproximou de um imaginário mais bucólico e tradicional?

Francisco Castro: Quando nós vamos para um imaginário mais rural alguma coisa tem sempre uma perspetiva um bocadinho externa. Temos noção de que, se tivermos a imaginar esse mundo, temos de assumir que o estamos a imaginar. Acho que termos noção de que isso é tudo imaginário, alimenta um bocadinho as nossas músicas e letras.

João: É também imaginar histórias. Mesmo quando vamos para as narrativas mais rurais, parte sempre de um ponto de vista que na verdade aquelas pessoas que estão a ser retratadas não são assim tão diferentes daquilo que nós somos aqui hoje em dia na cidade. Ou seja, são pedaços de histórias de sítios, pessoas e imaginários diferentes que acabamos por juntar e atribuir-lhe aquele espaço de tempo que nem sabemos sequer se existe.

O vosso mais recente single, “Santa Companha”, parte de uma lenda da tradição popular galega e do Norte de Portugal. Como é que descobriram essa história e o que vos atraiu nela ao ponto de a transformarem numa canção?

Francisco Castro: A ideia da Santa Companha só apareceu muito tarde na letra quando estávamos a acabá-la e apareceu quase como um tema unificador da letra. Não queríamos que aquilo fosse demasiado rural, nem que imaginasse um mundo demasiado bonito e rural, porque não é de todo o objetivo da música. Essa ideia de uma procissão dos mortos, pega numa coisa mais profunda do que simplesmente uma ideia mais campestre e ao mesmo tempo, colocar esse tema muda completamente o contexto da música. 

João: No final a Santa Companha acabou por unir tudo e juntar o que já estava feito até então e que deu uma coerência lógica e artística que não existia antes da Santa Campanha aparecer na equação. A música surgiu a partir de uma outra música, a Cantiga de Beira que menciona um pastor e a partir desse pastor surgiram ideias para escrever sobre um tema mais bucólico.

Diriam que as vossas outras músicas acabam por surgir dessa maneira? Começam a fazer a música sem nenhum conceito concreto e acabam por chegar a um conceito que une tudo?

Francisco Castro: É muito uma exploração. Mesmo quando nós temos uma música toda escrita acaba por mudar muito quando a vamos gravar. Mas é quase como se nessa ideia de música estivesse a música verdadeira e estivemos um bocadinho à procura dela. Vamos trocando palavras, instrumentos, secções até chegarmos a uma coisa que nos faça sentido, mas é muito exploratório.

João: Muitas vezes há temas encadeados. Às vezes estamos a fazer uma música e subconscientemente vamos abordando temas que a seguir quando começamos outro processo criativo vamos beber do que já acabámos de fazer.No final é que tentamos encontrar o que é que dá um significado lógico, mais coerente. E acho que também há muito dadaísmo no sentido que estamos só a escrever coisas soltas, mas que no final de contas têm um significado para nós e se calhar tem um significado diferente para quem esteja a ouvir.

Há alguma superstição, lenda ou figura popular portuguesa que ainda gostassem de transformar em canção?

Francisco Castro: Há muitas. Por exemplo, uma das próximas músicas que vamos lançar é sobre uma figura que não é uma figura tradicional ou uma lenda, que é o Tozé Marreco. Nós tentamos pegar nesta figura de um jogador de futebol meio falhado, meio sucesso e quase torná-lo minimamente lendário, como se fazia no folk antigo. Mas não há nada nele que seja necessariamente lendário, mas a ideia dele, mesmo que não seja de uma história verdadeira, pode expandir-se para uma coisa muito mais mítica. 

Porque é que decidiram propor-se a lançar um single todos os meses?

Francisco Castro: É muito mais fácil estarmos interessados num projeto se forem 1000 projetos pequenos do que um álbum grande, em que se calhar quando nós acabássemos o álbum as músicas que tinham dois anos já estávamos fartos delas. Além disso, como estamos muito no início e a explorar o nosso som, também ajuda muito a melhorar e a aprender novas técnicas e por isso sentimos mais progresso.

João: E também por entretenimento pessoal, porque essa meta é uma meta alcançável, ambiciosa numa medida certa e sabe bem ter regularidade. E é também uma maneira de ir dar razão às ideias embrionárias que vão surgindo.

A tradição é, por definição, algo que se passa de geração em geração. Como gostariam que as gerações futuras olhassem para a vossa música?

Francisco Castro: Seria muito agradável se acontecesse, mas eu espero que olhem como música e não como História. Espero que o que fazemos faça tanto sentido no futuro como faz agora e até, o modo como olhamos para a música tradicional muitas vezes é triste porque a vemos mais como uma coisa sociológica ou cultural, em vez de uma coisa artística, mas mesmo as músicas mais tradicionais, alguém escreveu aquela letra, tem um poema verdadeiro por trás e espero que esse mundo artístico que nós tentamos criar faça sentido para as pessoas que vierem a seguir e nos ouvirem.

* fotografias de Francisco Pereira

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