O Mr. Boombastic contagiou-nos com o seu verão jamaicano desde o primeiro instante em que se ouviu um entusiasmado “Lisboooon, are you ready?”. Bastaram essas primeiras palavras para colocar toda a Cidade do Rock na mesma onda, numa autêntica maré de verão onde ninguém conseguiu ficar parado.
Ao som de “In the Summertime” — “When the weather is high, you can stretch right up and touch the sky” — começou uma viagem nostálgica que não deu descanso do princípio ao fim. O nosso jamaicano preferido encontrou imediatamente o público português, que respondeu em coro quando se ouviu “I need your love, I need your lo-lo-lo-lo-lo-love”, transformando o recinto numa enorme pista de dança.
Mas houve um momento que ficará certamente na memória de quem esteve presente. Assim que começou a cantar “Mr. Boombastic”, Shaggy interrompeu a música, retirou o auricular e limitou-se a apreciar durante largos segundos as palmas, os gritos e o carinho do público. Sorriu, abanou as ancas ao ritmo de “Mr. Lover Lover” e deixou que fossem milhares de vozes a cantar por ele. Trinta e um anos depois de a ouvirmos pela primeira vez, continua a ser uma música intemporal, contagiante e capaz de unir várias gerações num só refrão.
Ao longo de todo o concerto, Shaggy parecia mais um personal trainer de boas vibrações do que um cantor. Pedia constantemente ao público para gritar, saltar, dançar, e Lisboa respondeu sem hesitar.
Houve ainda espaço para apresentar o seu mais recente álbum, Lottery, lançado há cerca de um mês, bem como o novo tema com Jeremih, também intitulado “Lottery”, que interpretou pela primeira vez ao vivo na Cidade do Rock.
A certa altura perguntou-nos: “Is the party in Lisbon?”, recebendo como resposta um estrondoso “Yeah!”. Aproveitou então para partilhar uma curiosidade: contou que esteve no seu primeiro Rock in Rio em 1993 e que, tantos anos depois, era um privilégio estar em Lisboa. Entre sorrisos, rematou da melhor forma: “Ain’t no party like a party in Lisbon.”
Logo de seguida lançou o desafio: “Are you turned up?” e fez soar Turn Down for What, de DJ Snake e Lil Jon. O recinto explodiu em energia, com milhares de pessoas aos saltos, preparando o terreno para outro dos grandes momentos da noite: It Wasn’t Me.
Sem esquecer as suas raízes, recordou também os The Wailers, que tinham atuado pouco antes, perguntando: “We need some reggae?”. Durante alguns instantes fez ecoar o espírito de Bob Marley com “Don’t worry about a thing, ‘cause every little thing is gonna be alright”. E, por momentos, foi exatamente isso que se sentiu. Bastava olhar em redor para ver pessoas de todas as idades a sorrir, a dançar e a esquecer o mundo lá fora. Shaggy transportou-nos para um tempo mais simples, embalados por uma contagiante energia jamaicana.
Ao lado do seu parceiro de palco, voltou a elevar a temperatura com “Go Down Deh”, da sua colaboração com Spice e Sean Paul, protagonizando uma divertida dance battle entre o lado direito e o lado esquerdo da plateia. O desafio era simples: descer até ao chão e dar tudo. Na primeira tentativa, desapontamos Shaggy, que não perdeu a oportunidade para puxar ainda mais por nós. Poucos segundos depois, toda a Cidade do Rock estava finalmente à altura do desafio.
Foi precisamente essa dinâmica constante com a audiência que fez com que o concerto parecesse mais uma festa entre amigos do que um espetáculo. Shaggy transmitiu sempre a sensação de ser aquele tio jamaicano descontraído, divertido e cheio de boa disposição que todos gostaríamos de ter.
Se veio marcar o Legends Day, conseguiu-o em pleno. E, no meio de tantos êxitos, “Angel” acabou por ser um dos momentos mais emotivos da atuação. É uma música que muitas vezes passa despercebida pelo seu ritmo leve, mas cuja mensagem continua profundamente atual. Quando se ouviu “Life is one big party when you’re still young, but who’s gonna have your back when it’s all done?”, era impossível não pensar nas amizades que realmente importam. Porque tudo é fácil enquanto há festas, copos e verão, mas quem estará ao nosso lado quando tudo isso passar? Uma letra tantas vezes ignorada, mas que naquela noite ganhou uma força especial e foi cantada em uníssono por milhares de pessoas.
Sem deixar a energia cair, Shaggy encaminhou-nos para o final do concerto com “Feel the Rush”, lembrando-nos para continuar a dançar, sentir o momento e seguir sempre em frente. A intensidade do espetáculo manteve-se até ao último segundo, quase como uma aula de body pump onde ninguém teve tempo para recuperar o fôlego em todos os bons sentidos.
Shaggy conquistou Lisboa de uma forma inesperada. Mostrou que os anos parecem simplesmente não passar por ele e que continua a dominar a arte de transformar um concerto numa enorme celebração da música, da boa disposição e das memórias que atravessam gerações.
“Yo yo
Feel the rush
Ooh!
Feel it in the air
Keep on movin’ it forward and
Look with no dare!”
E foi exatamente isso que nos deu, um muito esperado Shaggy Rush.






* fotografias de Sofia Serra










