REPORTAGEM | Don West, Teddy Swims, o Rock com maíuscula dos Pixies, Florence – the Machine e o kuduro nas ancas de todos com os Buraka.

Francisco Pereira

Assim acabou a 19ª edição do Festival NOS Alive. A 20ª já tem datas mas não tem ainda nenhuma confirmação porque "não havia mais nenhuma banda portuguesa que tivesse suspendido e estivesse para regressar".

Chegámos ao último dia do NOS Alive. Tal como disse Álvaro Covões, na conferência de imprensa marcada para as 20h, “passamos o ano à espera do festival, ficamos cansados antes mesmo de começar mas chegamos ao último dia com aquele sentimento de nostalgia de quem sabe que está quase a acabar e já tem saudades”.

E é isso mesmo. Em diferentes medidas (organização, artistas, jornalistas, trabalhadores, público), todos esperam que finalmente comece o evento, ficamos cansados e depois, ainda nem acabou e já começamos a ter saudades. No nosso caso, confirmou-se. No último dia do NOS Alive, apesar de ter sido até relativamente fácil de lá chegar (menos trânsito e/ou melhor organização?) chegámos apenas por volta das 18h. Queríamos ter chegado mais cedo porque havia dois atos que queríamos acompanhar às 16h30: Rita Cortezão no Palco Heineken e Esteves Sem Metafísica no Coreto. Não foi possível mas queremos muito que se concretize em breve.

Quem estava a brindar as pessoas que estavam a chegar àquela hora era Don West no Palco NOS, um australiano nada pequeno e que tem sido uma bela revelação na nova onda R&B/Soul. Veio para apresentar o seu álbum de estreia, Give Me All Your Love, editado em 2025 e ganhou certamente bastantes novos fãs com a sua atuação solarenga, ritmada e estilosa.

De seguida fomos dar um salto ao Palco Heineken para espreitar as Florence Road. Com apenas um álbum na bagagem, Fall Back, do ano passado, a banda, liderada por Lily Aron já ganhou algum reconhecimento da crítica e alguns fãs que se juntaram nas primeiras filas junto ao palco mas foi um concerto morno. Diria que não foi morno pela atuação mas pelas músicas… pouco excitantes. Excitada estava a artista seguinte no Palco Heineken. Alessi Rose entregou uma atuação enérgica, sempre a saltar de um lado para o outro e feliz de estar ali. Pouco conhecida do público português, Rose tentou agradar.

Do outro lado do recinto, a esta hora, já estava Teddy-tatuado-à-la-Post-Malone-Swims a entreter o Palco NOS. O norte-americano veio apresentar a sua The Ugly Tour, deu o seu melhor e percebeu-se que havia já muita gente feliz de o ver. Fechou em grande com “Lose Control”, o seu tema mais conhecido mas confessamos, o ponto alto da sua atuação foi uma cover de “Jump” dos Van Halen. Nunca falha.

Ainda antes de acabar Teddy Swims, já Pedro da Linha estava a dar cartas no Palco WTF Clubbing, com curadoria dos headliners da noite Buraka Som Sistema. Entre os muitos que estavam ali de propósito e aqueles que queriam aproveitar a hora para ir comer mas pararam a meio do caminho para dançar, o espaço estava cheio. Excelente atuação para o trio e ótimo pré-aquecimento para o momento alto da noite da maioria das pessoas.

Contudo, e no nosso caso sem surpresas para quem acompanha esta chafarica, o momento alto da noite seria às 21h30 no Palco Heineken, dando pelo nome de Pixies, o rock da noite. O concerto começou como acabou, ou seja, com a baixista Emma Richardson na voz, primeiro numa versão do tema “In Heaven (Lady in the Radiator Song)” de Peter Ivers & David Lynch e depois com “Into the White”. Pelo meio foi o rol de êxitos que definiram os Pixies como uma das melhores bandas da nossa geração. “Here Comes Your Man”, “Gouge Away”, “Hey”, “Bone Machine”, “Monkey Gone to Heaven”, “Debaser”, “Velouria” e duas versão de “Wave of Mutilation” (não seguidas) e depois mais no fim, “Where Is My Mind?”. São 40 anos de carreira em palco.

E foi um concerto sem grande interação. Black Francis não dirigiu uma única palavra ao público, nem “bom dia” nem “boa noite” nem um simples “thank you” mas nem foi necessário. Os Pixies foram diretos ao mais importante, sem tretas e sem beliscarem um centímetro de carisma. Ótimo concerto acompanhado por uma tenda apinhada de gente, a cantar do princípio ao fim e todos saímos a ganhar.

Estava pois na hora de Florence + The Machine preencherem o último slot antes dos Buraka Som Sistema (antes tinha subido ao palco, Lorde, mas não foi possível passar por lá os olhos e os ouvidos). Florence Welsh é daquelas artistas que dá tudo em palco e encanta todos com a sua persona meio onírica e ofereceu um bom espectáculo apoiado nos seus maiores êxitos como “You Got the Love”, “Shake It Out”, “Never Let Me Go” e claro, “Dog Days Are Over”. Mas notou-se menos frescura do que em presenças anteriores e menos entusiasmo, algo que o público não deu importância ao recebê-la da melhor maneira, como é habitual em Portugal.

Pena foi que, David Santos, quando subiu ao Palco Heineken como Noiserv, às 23h55, tenha visto muito pouca gente à sua frente, o que não é de todo merecido. O músico vinha apresentar 7305, o ótimo disco concebido à volta da celebração dos seus 20 anos de carreira. Certo que a sua música resulta melhor em ambientes intimistas, dedicados e envolventes mas à medida que o tempo foi avançando, Noiserv foi vendo a tenda a compor-se até ficar cheia já perto do final da atuação.

E por fim, para fechar a noite (a nossa, porque ainda havia dj-set de Modeselektor no WTF e Zimmer90 no Palco Heineken) era a vez dos aguardadíssimos Buraka Som Sistema. Um grupo que, tal como os Da Weasel, decidiu entrar num hiato da sua atividade conjunta e acordou regressar depois, pela porta grande e em exclusivo, no NOS Alive. Um grupo que teve o mérito de colocar aquela localidade da Amadora, nevrálgica da multi-culturalidade, nas bocas de Portugal e ainda melhor, do mundo. Que teve o mérito de pôr todos os que não sabiam que gostavam de kuduro, a gostar e a dançar kuduro. Um grupo que mostrou que não é preciso ter condições para se ser um artista mundial, basta ter talento… e uma página do MySpace.

O 2 + 2 deu então o óbvio. Festa total, kuduro nas ancas de todos, apoteose e o final perfeito ao som de “Kalemba (Wegue Wegue)”, “Lights Off” e “Zouk Flute” para um festival que nem sempre consegue os artistas que quer mas que continua a inovar, a surpreender e a provar que há sempe mais um espaço para a cultura, para os artistas portugueses, para a multi-culturalidade e a multi-inclusão.

Já há datas da próxima edição, a 20ª, que será realizada dias 8, 9 e 10 de julho de 2027. Já só faltam 360 dias até lá (and counting).

* fotografias oficiais do NOS Alive gentilmente cedidas pela organização captadas por: Duarte Salgueiro (Alessi Rose, ambiente), Arlindo Camacho (Buraka Som Sistema), Tomicornio (Buraka Som Sistema, Pixies), Sara Hawkkk (Don West, ambiente), Nuno Cruz (Florence Road), Hugo Macedo (Noiserv, Pixies), Rafaela Elias (Pixies), Matilde Fieschi (Teddy Swims)

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