“Já perdeu” e “Homem das notícias” surgem como duas faces de uma mesma moeda ou, neste caso, escrita: uma profundamente íntima, outra mordaz e observadora, ambas unidas por uma identidade sonora cada vez mais única e inequívoca no panorama da música contemporânea nacional.
“Já perdeu” expressa a distância entre a vontade de comunicar e a incapacidade de o fazer. Alguém que queria estar presente ou consolar, mas ficou preso na própria hesitação. Em termos musicais, revela um dos momentos mais contidos e sombrios do projeto a solo de Salvador Menezes. Ao piano junta-se Afonso Cabral, acentuando a fragilidade da composição.
“Homem das notícias” veste-se de melodias mais luminosas, cruzando folk e surf-rock para contar a história de uma personagem construída e movida a ambição, oportunismo e pela ilusão do sucesso. A canção, em termos sonoros, aparenta uma leveza quase despreocupada, mas esconde uma sátira mordaz às narrativas de poder e à facilidade com que a moral se acomoda à conveniência.
Os arranjos de ensemble de ambos os temas são assinados por Tomás Marques, num trabalho minucioso e sensível que serve as músicas na perfeição, com naturalidade e sem esforço aparente.
Para este disco, o Tipo manteve o mesmo núcleo duro do seu álbum anterior, Vigia. Os amigos e companheiros de banda nos You Can’t Win, Charlie Brown, Pedro Branco (no baixo) e Tomás Sousa (na bateria e percussões).
O novo álbum chega em novembro. Até lá, ficam estas duas canções disponíveis, que apontam para cenários diferentes, mas encontram o mesmo ponto de partida: a vontade de contar histórias onde nada é inteiramente claro e ninguém é apenas aquilo que parece.











