Há um género que já devíamos estar fartos de ver: a detetive obcecada a caçar um assassino em série, vida pessoal em ruínas, o costume. Furious parte exatamente daí e depois desvia-se. A série, da Hulu, segue Alice Black (uma ótima Emmy Rossum), ex-detetive de homicídios que passou para uma linha de apoio do FBI, chamada a investigar a morte de um homem endinheirado. Rapidamente percebe que o caso está ligado a outro em que trabalhou um ano antes. A ligação entre os dois: uma jovem chamada Catherine, interpretada por – uma não menos ótima – Lola Petticrew, que namorou com ambas as vítimas antes de estas morrerem.
A premissa nasce, de forma bastante livre, do filme Black Widow de 1987, escrito por Ronald Bass — que, curiosamente, está também creditado como produtor executivo desta nova versão. Mas Furious não é um remake com o mesmo enredo esticado em episódios semanais. A criadora Elizabeth Meriwether desloca o foco: em vez de um jogo de gato e rato construído para vigiar a violência infligida sobre mulheres, a série obriga a olhar para o que essa violência produz nas pessoas à volta — incluindo em quem a persegue. Alice e Catherine não são só caçadora e presa; são duas mulheres a caminhar, cada uma à sua maneira, em direção a alguma ideia de justiça, e essas ideias vão-se cruzando de forma pouco confortável.
O elenco de apoio ajuda a segurar esse equilíbrio: Scoot McNairy, Quincy Tyler Bernstine e Jake Lacy completam o núcleo principal, com Bernstine em particular a dar corpo a uma das relações mais interessantes da temporada, a de colega e confidente de Alice dentro do FBI.
Furious estreou no final de julho, com os primeiros três episódios lançados de uma vez e o resto em doses semanais até finais de agosto. A estrutura funciona a favor da série: dá tempo para a premissa assentar antes de acelerar. E acelera mesmo — o final da primeira temporada tem sido apontado como um dos mais discutidos do ano, ao ponto de mudar por completo a forma como se vai ler tudo o que veio antes.
Não é por acaso que a Hulu confirmou a renovação para uma segunda temporada logo em agosto, poucas semanas depois da estreia. E pelo que o desfecho da primeira deixa em aberto, há sinais de que a série que vai voltar não é a mesma que começámos a ver em julho — o terreno muda, e é natural que Alice e Catherine também mudem de posição uma em relação à outra.
Furious não reinventa o thriller policial, mas sabe exatamente onde ir buscar o desconforto certo. E isso, neste género tão explorado, já é mais do que se costuma conseguir. A não perder.










