O novo álbum, composto por 12 temas originais, reafirma a originalidade de uma das compositoras mais criativas e inventivas da música portuguesa contemporânea, aprofundando um percurso autoral muito próprio, cuja identidade se vem tornando cada vez mais nítida. Se Supermarket Joy concedeu a Margarida Campelo um espaço só seu, “Música de Elevador” vem confirmá-lo e ampliá-lo com maior ambição, sofisticação e maturidade.
Partindo da ideia de música ambiente – essa música pensada para acompanhar espaços, criar atmosferas e induzir uma sensação imediata de bem-estar – “Música de Elevador” toma esse imaginário como ponto de partida para construir um trabalho de grande subtileza e sofisticação. Sob uma superfície fluída, luminosa e aparentemente leve, o disco revela um trabalho composicional e de arranjo minucioso, onde cada detalhe contribui para uma escuta densa, envolvente e cuidadosamente desenhada. Há uma atenção muito particular à forma como o conforto e a estranheza, o imediato e o elaborado, o acessível e o complexo convivem dentro dos temas. O elevador surge, assim, não apenas como imagem ou conceito, mas como a própria arquitectura imaginária do disco. Cada faixa funciona como a abertura para um novo andar, um novo cenário, uma nova atmosfera ou uma pequena narrativa. O álbum desenha-se como uma viagem feita de transições e mudanças de espaço, onde o movimento importa mais do que o destino e onde a escuta se transforma num convite à deriva, à curiosidade e à imersão.
Mais atmosférico e conceptual, “Música de Elevador” desenvolve uma linguagem onde harmonias sofisticadas, grooves sedutores e um romantismo ligeiramente distraído convivem com uma forte dimensão imagética. O disco evidencia a amplitude da escrita de Margarida Campelo enquanto compositora e a consistência de uma visão artística capaz de conciliar refinamento formal, invenção melódica e liberdade estética num território verdadeiramente pessoal.
Se Supermarket Joy marcou de forma decisiva a afirmação da sua linguagem artística, integrando diversas listas de melhores discos de 2023, “Música de Elevador” surge agora como a confirmação plena desse espaço singular. Num momento em que poucos artistas conseguem construir um universo tão reconhecível, sofisticado e inventivo, Margarida Campelo volta a afirmar-se como uma autora e compositora de excepção, com um lugar muito próprio no presente da música portuguesa.
* fotografia de Maria Bicker











