Edição: maio 2017
No mesmo ecossistema de obras fundamentais que analisam a intersecção entre música e história cultural, Meet Me in the Bathroom: Rebirth and Rock and Roll in New York City 2001–2011, de Lizzy Goodman, destaca-se como o testamento espiritual da última grande era do rock norte-americano. Lançado originalmente em 2017 e rapidamente elevado ao estatuto de clássico ao lado de volumes como Please Kill Me e Our Band Could Be Your Life, o livro oferece uma história oral compulsiva e monumental sobre o renascimento artístico na cidade de Nova Iorque no início do milénio.
Goodman, que viveu a cena por dentro ao chegar à metrópole em 1999, reuniu mais de duzentas entrevistas originais com músicos, jornalistas, executivos e barmans, construindo uma narrativa fluida que se assemelha a uma longa e caótica conversa de bar sobre uma época em que o mundo mudou radicalmente. No final dos anos 90, Nova Iorque parecia ter perdido o seu trono musical para Seattle ou Londres, mas o início do século XXI trouxe uma tempestade perfeita onde a indústria discográfica ainda nadava em dinheiro apesar de estar mesmo à beira do abismo tecnológico do file-sharing. E também se vivia o trauma do 11 de setembro de 2001 que mergulhou a juventude numa profunda sensação de fragilidade.
Como recorda Karen O, vocalista dos Yeah Yeah Yeahs, a ilusão de segurança desapareceu e as pessoas precisavam de uma libertação imediata, transformando bandas da obscuridade em símbolos de glamour para uma geração faminta por hinos, o que se refletiu na necessidade de discos como Is This It ou Turn on the Bright Lights. O coração da narrativa pertence inevitavelmente aos The Strokes, um quinteto de jovens abastados liderado por Julian Casablancas que, apesar de parecerem a personificação da gentrificação, celebraram nos seus primeiros registos a decadência boémia de uma Nova Iorque prestes a desaparecer, sendo descritos como os últimos verdadeiros astros de rock antes de o vício e as pressões comerciais ditarem o desgaste criativo do grupo a partir de 2006.
O livro funciona também como o retrato biográfico da própria cidade ao longo das suas mais de 600 páginas, mostrando como bairros como o East Village mudaram de sinónimos de rendas baratas para palcos de especulação imobiliária que expulsou os artistas para Williamsburg, gentrificando o ambiente ao ponto de sufocar futuras cenas orgânicas. Além do garage rock, Goodman mergulha na ascensão do dance-punk com os LCD Soundsystem, no pós-punk geométrico dos Interpol e na sofisticação posterior dos Vampire Weekend, abordando ainda o papel crucial dos blogues de música na difusão global deste movimento. Trata-se de um registo viciante sobre uma era de excessos e guitarras que, vista à distância, se fixou como o último grande momento de inocência e relevância do rock de massas.

* fotografia de Katia Temkin











