Durante anos, Portugal foi uma espécie de ponto cego no mapa de Bad Bunny. Houve concertos anunciados que nunca aconteceram, festivais cancelados pela pandemia e fãs condenados a acompanhar tudo à distância, através de vídeos mal filmados no TikTok. Por isso, a estreia do músico porto-riquenho em Lisboa trazia qualquer coisa de ajuste de contas emocional. E percebeu-se logo nos primeiros minutos que ninguém ali estava disposto a desperdiçar o momento.
Na noite de terça-feira, o Estádio da Luz transformou-se numa gigantesca celebração latina. Mais de 60 mil pessoas — entre óculos escuros noturnos, tops brilhantes, bandeiras, leques e telemóveis permanentemente no ar — receberam Bad Bunny como se ele já pertencesse à cidade há anos. O calor ajudava à sensação tropical,
Inserido na digressão Debí Tirar Más Fotos World Tour, o espetáculo confirma aquilo que Benito Martínez Ocasio representa atualmente: não apenas um fenómeno musical, mas uma figura cultural que conseguiu levar Porto Rico ao centro da pop global sem diluir a própria identidade. Numa indústria que tantas vezes empurra artistas latinos para versões mais “internacionais” de si próprios, Bad Bunny fez o contrário. Cantou sempre em espanhol, manteve referências profundamente locais e transformou a cultura porto-riquenha no próprio coração da sua música.
O concerto arrancou com “LA MuDANZA”, recebido como um terramoto coletivo nas bancadas da Luz. Seguiram-se “WELTiTA”, “TURISTA”, “BAILE INoLVIDABLE” e “NUEVAYoL”, numa abertura desenhada para não deixar ninguém respirar muito tempo entre refrões. A produção impressionava desde o primeiro minuto: fogo, plataformas móveis, ecrãs gigantes, dezenas de bailarinos e uma realização visual que parecia pensada ao milímetro.
Mas, no meio da dimensão colossal do espetáculo, Bad Bunny nunca deixou o concerto transformar-se numa máquina impessoal. Pelo contrário. Uma das imagens mais fortes da noite aconteceu logo cedo, quando um dos músicos surpreendeu o estádio ao tocar “Lisboa, Menina e Moça” num cuatro porto-riquenho. O público respondeu instantaneamente, cantando o refrão em coro. Era um gesto calculado, claro, mas também inteligente: poucas coisas conquistam uma plateia tão depressa como reconhecer-lhe os símbolos.
“Não sabia que havia tanta gente bonita em Lisboa”, atirou Benito, entre risos. Depois vieram as inevitáveis palavras em português — “pastel de nata”, “bifana”, “francesinha”, “rissol” — ditas com entusiasmo de turista maravilhado. O estádio reagia como se cada referência fosse uma dedicatória individual.
Ao longo da noite, ficou evidente aquilo que distingue um concerto de Bad Bunny de muitos outros espetáculos pop gigantescos: a sensação de comunidade. O público não estava ali apenas pelas canções; estava pela energia coletiva, pela ideia de pertença, pela liberdade emocional que a música dele transporta. Havia casais, grupos de amigos, famílias inteiras e milhares de pessoas a cantar letras em espanhol como se tivessem crescido em San Juan.
Um dos momentos centrais do espetáculo aconteceu na famosa “Casita”, o segundo palco montado no meio da plateia, inspirado numa típica casa porto-riquenha. Foi ali que o concerto ganhou uma dimensão quase íntima, apesar das dezenas de milhares de pessoas em redor. Temas como “Tití Me Preguntó”, “Neverita”, “Si Veo a Tu Mamá” e “PERFUMITO NUEVO” transformaram aquela zona do estádio numa festa improvisada entre amigos.
Mais tarde, “Me Porto Bonito”, “VOY A LLeVARTE PA PR”, “No Me Conoce” e “Bichiyal” elevaram ainda mais a temperatura da noite. A canção surpresa escolhida para Lisboa foi “Estamos Bien”, recebida como um presente especial para os fãs portugueses. “Hoje todos somos porto-riquenhos”, disse o músico, numa frase que talvez resumisse melhor do que qualquer outra aquilo que estava a acontecer dentro da Luz.
Na reta final, “Ojitos Lindos” trouxe um dos momentos mais emocionais da noite, com milhares de vozes em coro, enquanto “DÁKITI” e “Yonaguni” voltaram a lançar o estádio para uma explosão de dança coletiva. Mas o verdadeiro peso emocional apareceu em “El Apagón” e “DtMF”, canção que dá nome à digressão e que funciona quase como manifesto desta fase da carreira de Bad Bunny — mais nostálgica, mais política e mais ligada à memória cultural de Porto Rico.
Antes do fim, Benito fez um pedido simples: guardar os telemóveis por alguns minutos. “Não pensem tanto no futuro. Vivam agora”, disse ao público. Nos ecrãs apareceu apenas uma palavra gigante: “Perreo”.
O estádio inteiro respondeu com os braços no ar, fogo de artifício e uma última descarga de euforia coletiva ao som de “EOO”. Durante quase três horas, Lisboa entrou completamente no universo de Bad Bunny — um lugar onde festa, melancolia, identidade e celebração coexistem sem contradição.
E talvez tenha sido isso o mais impressionante da estreia portuguesa do artista: a capacidade de transformar um estádio gigantesco num espaço estranhamente próximo. Como se, por uma noite, aquelas 60 mil pessoas fizessem todas parte da mesma fotografia.











