A vida tornou-se imprevisível. Cada semana é uma montanha-russa em que não sabemos qual vai ser a próxima barbaridade que chega do outro lado do Atlântico ou o próximo escândalo de pedofilia ou corrupção que vem do nosso Parlamento. (Ainda assim, há partidos que se têm tornado cada vez mais previsíveis no que toca a estes crimes.) As guerras são perpetuadas por interesses de países terceiros enquanto as populações locais são dizimadas e vistas como meras “casualidades”.
Neste cenário global que leva muita gente a desistir de acompanhar o noticiário para salvaguardar a sua sanidade, a Arte tem um papel importante. Para uns, será um escape e uma forma positiva de integrar a imprevisibilidade nas suas vidas (na música, a não-linearidade é sempre acolhida, como o mostram muitos destes álbuns). Para outros, é uma fonte de diálogo e uma forma de apresentar os problemas do presente em composições mais ortodoxas, que conduzam a novas formas de pensar. Acima de tudo, fazer música e envolver-se com o material que vai sendo lançado é recusar a narrativa pessimista de que vivemos tempos distópicos e que está tudo perdido. É o testemunho de que, mesmo quando os tempos são confusos, a cultura não desaparece e continua a ser relevante.
Num mundo cada vez mais global, em que a diversidade é uma constante, somos convidados a abrir os nossos ouvidos e escutar diferentes géneros e artistas. Na eletrónica, Djrum destacou-se mas outros nomes também merecem o nosso aplauso, como Nick Léon, que puxou o reggaeton para novos terrenos num final de dia húmido em Miami com Tropical Entropy. Ela Minus mostrou ainda ter bem presente a garra punk e não podiam faltar dois projetos da Príncipe, uma das discográficas mais interessantes portuguesas, que acolhe Xexa e DJ Narciso.
Falando em portugueses, a música ambient tem em Rafael Toral um dos melhores álbuns do género do ano. E porque cada vez mais a música ambient aparece numa certa forma de fusão com outros géneros, William Tyler traz-nos dois magníficos álbuns, um a solo e outro em colaboração, que levam o country e a folk aos extremos da contemplação.
A música pop mostrou novamente ser um termo bastante lato. Assistimos a masterclasses em que tudo está na dose certa nos projetos de rusowsky e Bon Iver. Onde houve mais groove foi na zona de fusão com o R&B, que veio por meio de artistas como Dijon e Nourished by Time. Mas também se dançou com artistas que têm por base a dance, como Oklou e PinkPantheress.
A pop deixou óbvio este ano algo em que já há muito acreditávamos: conseguir ser muito mais do que tabelas e hits, havendo espaço para teses complexas. E, curiosamente, esses projetos vieram de dois dos maiores artistas no globo, artistas que realmente encabeçam tabelas. Rosalía trouxe o maximalismo e Bad Bunny escreveu uma poderosa carta de amor à sua ilha caribenha e deixou uma crítica ao neocolonialismo americano, da forma mais clara até agora no seu catálogo.
Na área do rock, a amostra é tão ou mais diversificada do que na pop. Os Geese conquistaram a crítica e não houve lista de final de ano que não os incluísse. Já menos falados mas igualmente meritórios foram os triunfos de Sharon Van Etten, shame, The Beths e mark william lewis.
Resta-nos dizer que cada um destes álbuns foi uma grande mais-valia para o panorama cultural de 2025. Qualquer um destes 60 podia encabeçar uma outra lista dos melhores álbuns de 2025 e não nos chocar nada. Não incluímos álbuns “assim-assim” ou que nos deixassem algo menos do que profundamente convencidos do seu grande valor.
Ainda assim, devemos deixar claro que não acreditamos em “listas absolutas”. Não pretendemos cartografar de forma objetiva aquilo que foi a música internacional e nacional em 2025, porque tal é impossível. Qualquer lista que se publica é sempre uma visão daquilo que se passou ao longo do ano, que parte de uma determinada posição que é diferente para toda a gente, pelas coisas que ouviu, que leu e a que, em geral, se foi expondo. O objetivo deste exercício de fazer listas é, acima de tudo, dar a conhecer os artistas que nós achamos merecedores de (mais) atenção e documentar uma certa visão da música do ano, muito mais do que calcularmos qual fica acima de qual na lista.
Pode acontecer que façam scroll pela lista abaixo e não conheçam nada para além de Bad Bunny e Rosalía. Pode acontecer que achem esta lista previsível e igual a todas as outras. Podem até achar que é pretensiosa e desligada do panorama musical real. Esta lista é para aqueles que viajam rapidamente pelas listas à procura daquele nome que eles acham que deveria estar no topo e para aqueles passeiam pela lista com mais calma, indo ouvindo este ou aquele artista cuja capa do álbum chamou mais à atenção. É para aqueles que, de forma insegura, abrem as listas à espera de uma validação do seu bom gosto (somos todos um bocado assim) e para aqueles do contra, que já as abrem convencidos de que fariam muito melhor e que o autor não percebe nada disto (também somos todos um bocado assim). Para todos os efeitos, aqui ficam 60 grandes álbuns de 2025.
60.
The Weather Station
Humanhood
59.
Folk Bitch Trio
Now Would Be A Good Time
58.
Panda Bear
Sinister Grift
57.
pablopablo
Canciones en Mi
56.
Nick León
Tropical Entropy
55.
DJ Narciso
Capítulo Experimental
54.
james K
Friend
53.
Ninajirachi
I Love My Computer
52.
CMAT
Euro-Country
51.
Black Country, New Road
Forever Howlong
50.
Rachel Bobbitt
Swimming Towards The Sand
49.
PinkPantheress
Fancy That
48.
Sorry
COSPLAY
47.
Nourished By Time
The Passionate Ones
46.
mark william lewis
Mark William Lewis
45.
Los Thuthanaka
Los Thuthanaka
44.
Nazar
Demilitarize
43.
Rafael Toral
Traveling Light
42.
Maria Sommerville
Luster
41.
Saba + No ID
From the Private Collection of Saba and No ID
40.
Florist
Jellywish
39.
Xexa
Kissom
38.
shame
Cutthroat
37
MANSLAUGHTER 777
God’s World
36.
Joanne Robertson
Blurrr
35.
Planning for Burial
It’s Closeness, It’s Easy
34.
Juana Molina
DOGA
33.
Alex G
Headlights
32.
rusowsky
DAISY
31.
Juana Rozas
TANYA
30.
Rival Consoles
Landscape from Memory
29.
Ben Kweller
Cover the Mirrors
28.
Carminho
Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir
27.
Bon Iver
SABLE, fABLE
26.
billy woods
GOLLIWOG
25.
Model/Actriz
Pirouette
24.
Sharon Van Etten
Sharon Van Etten & The Attachment Theory
23.
Sudan Archives
The BPM
22.
Oklou
choke enough
21.
Smerz
Big city life
20.
The Beths
Straight Line Was A Lie
19.
caroline
caroline 2
18.
Dijon
Baby
17.
Vines
I’ll be here
16.
Yoshika Colwell
On The wing
15.
Anna von hausswolf
Iconoclasts
14.
Bad Bunny
DeBÍ TiRAR MàS FOToS
13.
Just Mustard
WE WERE JUST HERE
12.
Wednesday
Bleeds
11.
Ela Minus
DÍA
10.
SPELLLING
Portrait of My Heart
Enquanto a música anterior de SPELLLING encaminhava-nos para um imaginário bruxesco e mágico, em Portrait of My Heart Chrystia Cabral entrega algo muito mais concreto. As canções estão cheias de emoções fortes, que são veiculadas pela voz poderosa de Cabral. As guitarras assumem um maior destaque num registo claramente influenciado pelo rock da década de 90, como tal confirma uma versão de my bloody valentine, que encerra o álbum. É uma obra dramática e teatral, mas há uma vulnerabilidade humana e genuína em cada canção.
09.
Rosalía
LUX
A cantora catalã Rosalía dispensa apresentações. Sempre versátil, em Lux expande o seu som para lá da pop, flamenco e ritmos latinos que dela já conhecíamos. Rosalía é uma estudante e cada álbum que lança é uma tese (às vezes, de forma bastante literal). Não só foi buscar a música clássica que estudou no conservatório como também mergulhou nas hagiografias de santas femininas espalhadas pelo globo, o que a levou a cantar em 14 línguas ao longo de uma hora acompanhada pela London Symphony Orchestra. Se tudo isto soa maximalista, é porque de facto o é. Talvez a sua Magnum opus continue a ser a fusão perfeita de pop, flamenco e urbano que alcançou em El Mal Querer, mas Lux é dos álbuns mais ambiciosos desta década e não deixou ninguém indiferente este ano.
08.
Marissa Nadler
New Radiations
Marissa Nadler, baseada em Nashville, já há vinte anos que se estreou, mas só este ano passou debaixo do nosso radar, com o magnífico New Radiations. O folk gótico que compõe é como um feitiço. Há algo de místico e transcendental na voz de Nadler que a colocaria em casa na banda sonora de Blue Velvet ou Twin Peaks. As harmonias atmosféricas são de outro mundo, como uma sereia que serve de tentação ao marinheiro. Nadler mostra que a beleza pode ser umbrosa, fúnebre até.
07.
Great Grandpa
Patience, Moonbeam
O seguimento muito esperado de Four of Arrows (2019) chegou este ano e podemos dizer que o longo interrégno compensou. O quinteto mantém a sua abordagem grunge à música folk e indie (não fossem eles de Seattle), na qual as emoções são apresentadas de forma crua e pura, com a voz a falhar aqui e ali. Ainda assim, as canções em Patience, Moonbeam são mais delicadas e escritas com mais cuidado. O que mais salta à vista em Great Grandpa continua a ser a unidade do grupo, que, quando se junta, forma um só organismo. Transmitem-nos a sensação de serem mais do que uma banda e talvez por isso o resultado final seja tão íntimo e unificado.
06.
William Tyler
Time Indefinite
O americano William Tyler aparece duas vezes no Top 10 desta lista. Pode parecer favoritismo, mas a verdade é que os dois álbuns são, de facto, bastante bons. Em Time Indefinite, Tyler mescla as suas guitarras com found sounds e field recordings, construindo uma textura sombria, granulada e que nos convida a parar para pensar. O disco é de certa forma apocalíptico. Tyler medita na proximidade entre a morte e o dia-a-dia e naquilo que ele apelida de mudanças universais “macro-trágicas”. Se Time Indefinite for uma previsão confiável, eu acho que o fim da sociedade como a conhecemos até soa bastante bem.
05.
Perfume Genius
Glory
Já há largos anos que Perfume Genius constrói uma carreira constantemente mutável. Por vezes, passa pelo pop experimental; noutras, brinca com o rock alternativo. Sempre de forma excelente, devemos dizer. Mas o registo que lhe fica melhor é aquele que o posiciona mais próximo da folk e atingiu a sua forma mais bonita em Glory. É um álbum sobre amor, mas também sobre perdas e como estas doem mais quando há amor envolvido. Fala-nos de dores de crescimento e assegura-nos que estas não desaparecem no final da adolescência, mas antes acompanham-nos até ao fim da vida, não fosse isto tudo um processo contínuo e incessante. As canções são autênticos poemas entrelaçados em melodias e arranjos belíssimos. Pode não ser o álbum mais arriscado de Perfume Genius, mas é certamente aquele com menos falhas.
04.
Kieran Hebden + William Tyler
41 Longfield Street Late ’80s
Kieran Hebden, o homem por trás de Four Tet, colabora com o artista de avant-folk William Tyler num projeto que desafia a categorização. Nasce de uma presença forte da música country na infância, algo que ambos partilham. Dos clássicos country partem para composições mais amplas, fundindo o género com a música ambient e toques de eletrónica. A fusão é feita sem costuras à vista e os elementos eletroacústicos convivem uns com os outros lado a lado de forma orgânica. É um testemunho da maestria e comando que os dois artistas possuem sobre os géneros com que cresceram e os que eles próprios ajudaram a crescer.
03.
Hayden Pedigo + Chat Pile
In The Earth Again
A colaboração mais improvável do ano revelou ser também uma das melhores. Chat Pile, a banda de sludge metal, juntou-se a Hayden Pedigo, o guitarrista folk que conta histórias completas com as suas composições instrumentais. O trabalho dos dois projetos fora deste álbum pouco tem em comum mas em In The Earth Again, a colaboração parece natural e óbvia. As canções desdobram-se pacientemente numa catarse em câmera lenta e a tensão é lentamente libertada. Mais do que fazer um trabalho a meias, em In The Earth Again os dois projetos descobrem dentro de si novos sons para se encontrarem a meio caminho.
02.
Djrum
Under Tangled Silence
Felix Manuel, o DJ e produtor britânico por trás do nome Djrum, entrega o seu melhor álbum em Under Tangled Silence. Ao longo do alinhamento, Djrum visita diversos cantos da música ocidental e encadeia cada uma das partes sempre num estilo imprevisível, passando pelo jazz, eletrónica, ambient e clássica. A qualidade técnica é irrepreensível, mas mais surpreendente ainda é ver como Djrum mistura diversos elementos num som inédito. Por entre polirritmos complexos e improvisos, nasce uma nova forma de dança.
01.
Geese
Getting Killed
Se há um álbum que materializa a liberdade em 2025, é Getting Killed. É livre, é jovem e é cheio de energia. A canções desenrolam-se de maneira desprendida, como se se tratasse de uma live jam na garagem de um amigo. O vocalista, Cameron Winter, possui uma voz ambígua no sentido em que é elegante, mas, simultaneamente, muito pouco polida e que canaliza mil matizes emocionais. Não só a voz, mas também o instrumental e as letras, carregam esta aura de “the real thing”, sem filtros ou embelezamentos. Versos sinceros fazem-se acompanhar lado a lado de outros, aparentemente non-sense, e assim os Geese vão partilhando grandes verdades de forma despreocupada.









