Joana Castanheira explora intimidades e sentimentos em ‘Desapreço Acústico’.

Redação Mente Cultural

Em revisitação ao LP lançado em 2023, a artista partilha o palco com o músico David Toledo e aposta na voz como principal instrumento

A cantora e compositora brasileira Joana Castanheira estreia, a 29 de maio, Desapreço Acústico. O novo projecto revela ao público uma versão reduzida e unplugged do disco Desapreço, lançado em outubro de 2023. Através da sua voz, as composições ganham uma nova forma a partir da fusão entre o minimalismo e uma interpretação pulsante. Registo de uma apresentação realizada ao lado do músico David Toledo, o projecto reescreve a narrativa original de Castanheira, agora mais concisa e próxima do público. A artista actua em Portugal este ano, a 23 de outubro, no BOTA, em Lisboa, e a 24 do mesmo mês no Armazem8, em Évora.

“Lá atrás, estas músicas foram surgindo despretensiosamente, mas eu sentia que ainda não tinha maturidade artística suficiente para trabalhá-las”, recorda a cantora. “Eu não sabia como fazê-lo. Depois de algum tempo, percebi que faziam sentido juntas e que poderiam transformar-se num disco”. Consagrado nos palcos, o repertório de Desapreço volta-se agora para as minúcias do formato acústico, numa formação que destaca a união entre voz e guitarra. Em cena, Joana Castanheira expõe um momento de celebração, seja da própria carreira, seja da bem-sucedida digressão que percorreu o estado de Santa Catarina, a sua terra natal, em abril passado.

Enquanto a gravação em estúdio revelava um forte conceito dramático e teatral, explorado desde o EP Aparador de Saudades Que Ainda Não Existiram Ou Porta-Retratos (2020), o presente Desapreço Acústico procura aproximar ainda mais a autora dos seus ouvintes. Para alcançar essa atmosfera intimista, Joana mergulha profundamente nos sentimentos, sobretudo ao contar as histórias que deram origem ao repertório, bem como ao recuperar detalhes do processo que a formou enquanto artista.Inspirada inicialmente pela proposta de outro LP, Carminho Canta Tom Jobim, da cantautora Carminho, os desdobramentos cénicos da performance de Castanheira remetem agora para uma artista que corre em direcção à própria liberdade – algo inegociável.

“Levar Desapreço para este lugar acústico faz parte de um processo muito especial, que se foi construindo a partir de composições que eu e a Joana já tínhamos feito em parceria e que já andávamos a tocar nos concertos”, revela o produtor João Peters, parceiro de longa data e um dos principais articuladores desta reestreia. “Foi precisamente por causa dessas experiências que uma nova estética, agora apresentada ao público, já vinha sendo idealizada há algum tempo”, acrescenta.

Pouco a pouco, o novo disco acústico foi-se afirmando como uma obra de natureza colectiva e assente na organicidade do processo. Para além de recuperar faixas que exploram a vulnerabilidade e a atenção dada ao carácter sentimental, como Cantar, Caso Quebrado e Átame, o LP apresenta também “Soneto de Amor Puro e Simples”, esta última uma colaboração com David Toledo. “Cantar ao lado da Joana outra vez deixou-me extremamente feliz. Sinto que, a cada nova interpretação desta faixa, entregamos mais emoção e dramatismo”, conta o artista. A setlist, no final do percurso, propõe uma verdadeira imersão. Enquanto no tema-título, “Desapreço”, Castanheira evoca a alma do bolero para dar tom ao caminho que se segue, “Meu Amor”, escolhida como single de apresentação, recorre à guitarra, como é possível ver no registo em vídeo, para conferir a intimidade necessária ao discurso.

Como se falasse ao ouvido de cada ouvinte, a artista vai revelando gradualmente um manifesto da composição autoral, que desemboca, entre outros momentos, em “Cantar”. Composição do músico Paulo Novaes, a faixa registada em estúdio inicialmente numa gravação pelo autor e pela sua avó, antiga cantora de rádio. Guiados pelos vocais de Castanheira, somos transportados para outro tempo, em que memórias, cartas e declarações de amor amenizavam a ausência e a distância. Já “Soneto de Amor Puro e Simples” ecoa o mesmo sentimento de forma literal, trazendo ao trabalho de Joana toda uma atmosfera romântica.

Na reta final, chega o momento de conhecer as interpretações mais recentes de “Caso Quebrado”, uma parceria com os amigos Cacau Corrêa, Léo Marelua e André Stahnke, e “Átame”, cantada integralmente em espanhol. Ambas são momentos em que o instrumental e a linguagem se expressam em pé de igualdade. Com a estreia de Desapreço Acústico, Joana Castanheira reafirma a força da sua escrita e da sua presença cénica ao apostar na depuração dos arranjos e na intensidade interpretativa como caminhos de aproximação ao público. O resultado é um registo que, ao mesmo tempo que revisita o passado recente da artista, projecta novas possibilidades criativas, consolidando-a como um dos nomes mais sensíveis e consistentes da sua geração.

* fotografia de Rafaella Piazza

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