A nova aposta da Apple TV+ é uma das surpresas televisivas do ano. Mistura humor, terror, mistério, e absurdo burocrático numa combinação que, no papel, parece um desastre anunciado. No ecrã, funciona de forma irritantemente bem. Tanto que a renovação para uma segunda temporada chegou ainda antes do final da primeira.
A premissa é simples. Matthew Rhys interpreta Tom Loftis, presidente da câmara de uma pequena ilha da Nova Inglaterra que tenta desesperadamente atrair turistas e revitalizar uma comunidade esquecida. O problema? Os habitantes acreditam que a ilha está amaldiçoada. O problema maior? Têm razão.
O mais interessante é que Widow’s Bay nunca escolhe entre a comédia e o terror. Faz as duas coisas ao mesmo tempo. Um minuto estamos a assistir a uma reunião municipal digna de uma sitcom. No seguinte, surge uma névoa sobrenatural, uma criatura saída de um pesadelo marítimo ou mais uma manifestação da maldição que paira sobre a ilha.
Rhys é a âncora perfeita para o caos. O seu Tom Loftis tem a energia de um homem que percebeu tarde demais que aceitou o pior emprego do mundo. Ao seu lado, Kate O’Flynn, Stephen Root, Kevin Carroll e Dale Dickey ajudam a transformar a comunidade de Widow’s Bay numa galeria de figuras excêntricas que nunca caem na caricatura.
Mas aquilo que realmente distingue a série é a realização. Não é por acaso que nomes como Hiro Murai e Ti West passaram por aqui. Há uma confiança rara na forma como a câmara observa os espaços vazios, os corredores silenciosos e os rostos que sabem mais do que dizem. A ilha torna-se uma personagem. Uma personagem que parece estar permanentemente a observar toda a gente.
O humor também merece destaque porque nunca serve para aliviar a tensão. Pelo contrário. Muitas vezes torna as situações ainda mais desconfortáveis. Há diálogos tão absurdos que provocam gargalhadas e arrepios na mesma cena.
É inevitável pensar em Twin Peaks, em Stephen King, ou até em Jaws na forma como uma comunidade inteira se organiza à volta de um medo comum. A diferença é que Widow’s Bay não vive de referências. Tem personalidade própria. Tanto que até Hideo Kojima confessou ter devorado nove episódios de seguida depois de recomendações entusiásticas de Guillermo del Toro.
O final deixa perguntas suficientes para alimentar fóruns durante meses e a segunda temporada já está garantida. Mas, mesmo que nunca existisse continuação, a primeira temporada já justificava a viagem.
Num ano cheio de séries que parecem concebidas por algoritmo, Widow’s Bay faz algo radical: tem ideias. Algumas são absurdas. Outras assustadoras. Muitas são as duas coisas ao mesmo tempo.
E há um palhaço que será material para noites mal dormidas…











