Humberto é o alter ego e o espaço de desabafo de Humberto Dias, um dos criadores mais singulares, provocadores e interessantes a emergir no circuito alternativo português nos últimos anos. Natural de Peniche, o músico e compositor construiu a sua identidade artística na intersecção perfeita entre a canção indie de autor, a folk lo-fi e uma abordagem assumidamente teatral e performativa, onde a ironia serve frequentemente de escudo para expor as maiores vulnerabilidades humanas. Conhecido por atuações ao vivo intensas e magnéticas, onde o diálogo com o público e o humor absurdo são tão importantes como a música, Humberto tem cimentado um estatuto de culto ao recusar clichés e ao transformar o quotidiano em pequenas tragédias e comédias cantadas.
Essa visão artística tão descomprometida quanto acutilante atingiu a sua maturidade em 2025 com o lançamento do álbum Mau Teatro. O disco foi amplamente elogiado pela crítica especializada pela sua capacidade de cruzar arranjos acústicos, eletrónica subtil e crónicas narrativas sobre o fingimento, a frustração social e a beleza das coisas imperfeitas. Longe de ser apenas um conjunto de canções, Mau Teatro afirmou-se como um manifesto conceptual que captou na perfeição a essência de Humberto: um artista que usa o palco e o estúdio como espelhos da encenação social que todos vivemos diariamente, dividindo-se entre a melancolia e o escárnio.
Convidado pelo Mente Cultural a abrir o seu baú de memórias musicais, Humberto trouxe para esta curadoria exclusiva a mesma entrega e profundidade que dedica à sua própria obra. Se, independentemente do número de escolhas, iríamos sempre querer mais, o músico trouxe uma generosidade imensa nas palavras, explicando de forma detalhada e apaixonada o impacto que cada um desses discos teve na sua formação. É um testemunho profundamente intimista que nos oferece um mapa valioso para decifrar as influências sonoras e literárias que ajudaram a moldar uma das mentes mais ternas e ao mesmo tempo desconcertantes da nova música nacional.
* fotografias de João Hasselberg
1.Amália Rodrigues
Asas Fechadas (1962)
Também conhecido como o álbum do busto, Amália já tornada ícone petrifica o seu rosto na imagem de capa, não para se manter naquilo que já fazia bem, mas para se
ultrapassar e reescrever a história do fado, através de um projeto de colaboração com o compositor Alain Oulman, em tempos de ditadura. Das várias letras que Luís Macedo
escreveu, destaco a canção que dá título ao álbum, um fado onde as guitarras caem numa lenta dispersão, desfazendo-se como flocos de neve no alcatrão quente, como se antecipassem o que voz humana está prestes a lamentar através do poema: “Asas fechadas/ Dizem dois sentidos/ Ambos iguais/ E versos verticais/ No teu sorriso só
pressinto/ Um sofrimento mais…” Depois temos a própria Amália como poeta e letrista com a sua “Estranha Forma de Vida”, um fado daqueles que nos fica impresso na boca,
um fado que é provavelmente um dos melhores da galáxia, se pensarmos bem.
Destacar também a colaboração com o David Mourão-Ferreira, que escreveu a letra de “Abandono”, que sei de coração, e que é sobre alguém que chora sobre alguém que foi levado para a prisão de Peniche onde, como sabem, até 1974, as pessoas com ideias diferentes à do regime fascista eram presas, torturadas e humilhadas. Hoje é o Museu
Nacional da Resistência e da Liberdade, que merece ser visitado, e esperemos que continue a ser por largos séculos.
2. Arthur Russel
World of Echo (1986)
O som que Russel encontrou é inimitável e este álbum define muito bem o seu tom, a sua sensibilidade e génio. Ensinamento sobre o infinito dentro do low-fi, na produção crua que se alongava a música de dança, exploratória, sem género, onde o foco estava no poema de sensibilidade melódica e rítmica fulgurantes. Deixou-nos muito cedo, umas centenas de cassetes com originais, e os postumamente publicados Another Thought (1994) ou o The World of Arthur Russel (2004), por exemplo, servem bem como a continuação desta obra prima.
3. Tom Zé
Estudando o Samba (1976)
Há 10 anos atrás conheci Tom Zé no Recife. Ele, nessa altura, estava dar os primeiros concertos com o material do álbum Canções Eróticas de Ninar (2016), na pequena sala da Caixa Cultural Recife, para uma audiência de 100 pessoas, todas as noites durante uma semana. Algo que tinha a tradição de fazer em cada novo álbum – encontro com os músicos e público, num lugar intimista, num género de ginásio poético-musical, antes de sair em tour. Isso diz muito sobre o seu labor e compromisso com a performance do seu próprio material. Quando o conheci, conversámos e rimos e não falámos sobre música, mas percebi também que a música que produz é uma extensão da sua personalidade, liberdade e inteligência. Não há faz de conta em Tom Zé. Para o efeito desta lista, e no meio de muitos álbuns geniais dele, escolhi este porque é um dos que estabelece o seu multiverso, sua alternância e originalidade, e que esperou uns anos até encontrar o seu público. Tom Zé devia ser galardoado Nóbel da Literatura e da Física Quântica.
4. Julia Jacklin
Crushing (2019)
Tenho escutado muitas bandas da Austrália e da Nova Zelândia e talvez a Julia Jacklin seja, neste momento, a minha favorita. E Crushing funciona como variações sobre um mesmo desencontro, trata-se de um álbum conceptual na sua melhor forma sobre um romance absurdo. Destaca-se o single “Body” que tem uma linha de baixo que nos fica a reverberar na circulação sanguínea, durante semanas, ou a música “Don’t Know How To Keep Loving You”, um hino àquele momento inicial de afastamento, quando já sabemos que não vai dar. A forma como escreve, a sua contenção (por exemplo na secção rítmica) nas escolhas de produção, são qualidades que trespassam os seus três álbuns de estúdio, sendo este Crushing uma obra-prima.
5. Timber Timbre
Hot Dreams (2014)
Timber Timbre, projeto inicialmente do canadiano Taylor Kirk que depois se tornou numa banda sólida (ouçam e vejam o concerto no Massey Hall), é um outro caso onde toda a
discografia é para ser escutada lentamente. Hot Dreams é o trabalho que mais distingue e define Timber Timbre. Este álbum acompanhou-me no regresso a Portugal, e foi sem dúvida uma das grandes referências para o Mau Teatro. Fiquei devastado agora ao saber da morte de Taylor Kirk, enquanto escrevia esta lista. Agradeço e celebro a música e poesia deste espírito livre.










