REPORTAGEM | Twenty One Pilots no NOS Alive 2026: quando banda e público e banda se fundem num só”

Margarida Páscoa

Os Twenty One Pilots encerraram o primeiro dia do NOS Alive 2026 com um espetáculo inesquecível. A crónica do regresso de Tyler Joseph e Josh Dun a Portugal.

Tyler Joseph e Josh Dun – o duo norte-americano mais conhecido por Twenty One Pilots – foram cabeças de cartaz no primeiro dia do Nos Alive e provaram ser mais do que uma banda a atuar num festival – garantiram dar ao público um concerto para os fãs e cumpriram com as suas palavras.

Não posso, em boa consciência, evitar reconhecer que esta banda não me é, de forma alguma, indiferente. Há mais de uma década que acompanho este duo, em todas as músicas, eras e narrativas que foram contando ao longo dos anos, assim como estive presente na primeira e única vez em que atuaram em solo português — a 17 de março de 2019, com “The Bandito Tour” — até ontem. Também não posso deixar de os contextualizar, em termos de banda — para percebermos a magnitude da atuação que ocorreu ontem em Algés (e para percebermos um pouco mais sobre os fãs) é preciso olharmos para a carreira que os trouxe aqui.

Desde que começou o projeto, em 2009, Tyler Joseph (o vocalista, baixista e pianista) sempre vocalizou o seu trabalho e liricismo em redor da saúde mental — desde a primeira música lançada no primeiro álbum (em título próprio — Twenty One Pilots), acompanhamos um discurso aberto sobre a luta contra a depressão, ansiedade, autolesão e tendências suicidas. A pouco e pouco a banda vai ganhando público, no clima “underground” de Ohio, Cleveland (de onde são naturais) e é apenas quando lançam Vessel em 2013 que ganham uma visibilidade nacional e eventualmente internacional, ao assinarem com a editora Fueled by Ramen, que geria também grupos homólogos, já mais estabelecidos na dinâmica cultural, como Paramore, Panic! At the Disco e Fall Out Boy

É a partir daqui que a banda ganha uma maior audiência e é com BlurryFace, álbum de 2015, que os dois amigos passam a ter um grupo de fãs altamente fiel e dedicado. O grupo surge para muitos como um apoio e uma voz — ora em grupos de fãs, em redes sociais, ora na música — e o duo conseguiu cimentar-se como uma voz amiga para milhões de pessoas. 

Além da importantíssima questão temática, o grupo foi desenvolvendo também uma extensa narrativa que se estendeu por todos os álbuns como uma metáfora a essas mesmas lutas  — através de mensagens e imagens encriptadas, fãs de todo o mundo juntaram-se para descodificar o universo criado por Tyler e Josh, que ganha plena forma em Trench (2018), com locais e personagens como Dema, Clancy, os Bishops e os Banditos, e mais tarde, em todos os restantes albuns. Mais do que uma história, esta narrativa tornou-se um dos maiores fatores de união da comunidade de fãs — e ajuda a explicar o que se viveu ontem no Nos Alive.

A lealdade da comunidade de fãs fez-se sentir desde cedo: pelas quatro da manhã do dia 9 já havia quem esperasse pela abertura do recinto e na abertura das portas — sempre pelas 15h — eram já centenas de fãs vestidos a rigor — uns com o “uniforme” de Trench (também conhecidos por Banditos), outros como o personagem Blurryface, do álbum com esse mesmo nome, e muitos de vermelho e preto, alusivos aos últimos dois álbuns, que fecham a história. Eram muitos os reencontros que se viam no festival – amigos feitos através do partilhado amor à banda há anos, ou no próprio dia. E o entusiasmo era, obviamente, visível.

Os primeiros guerreiros da abertura de portas correram o mais rápido possível para tentar garantir um melhor lugar na frente do palco. Os fãs mais atentos já sabem que ambos os protagonistas norte-americanos tendem a interagir bastante com os fãs — quanto mais perto do palco, maior a chance de estar o mais perto possível de Tyler e Josh.

Quem não foi logo para a frente tentou aproveitar um pouco do dia — acompanhar outros artistas ou na eventual “caça aos brindes”, mas, no decorrer do dia — o cansaço era palpável — quem veio pelos Twenty One Pilots teria de esperar até à meia-noite e meia e, com o sol desaparecido, o vento já se fazia sentir e a brisa fria trazia mais ânsia aos fãs.

A partir das 23h, no entanto, o palco foi ganhando cada vez mais multidão e o entusiasmo voltava a aparecer na cara dos presentes — a cada minuto que passava, mais fácil era ficar acordado e o entusiasmo puro de os ter em palco dentro de uma hora era cada vez mais palpável. Houve também o clássico espetáculo de luzes do Nos Alive, que mais incentivou os fãs a recarregar energias para o espetáculo pelo qual aguardaram todo o dia.

A dois minutos do início do espetáculo, somos recebidos com o som “What’s your ETA?” , excerto da música “Midwest Indigo” que automaticamente faz ecoar “TWO MINUTES” na voz dos fãs (a letra da música é mesmo essa), e o entusiasmo dá-se oficialmente por aberto. 

E à meia-noite e meia, em ponto, a banda apresenta-se ao público português com “Overcompensate”, do álbum Clancy, e abre o tão esperado concerto, onde tocaram temas de todos os álbuns, exceto Twenty One Pilots (Self-Titled) e Regional at Best

Dentro da selist habitual de festivais por onde têm passado, desde junho, e da qual fazemos, agora parte, destacam-se também dois covers – “Stolen Dance” dos Milky Chance e o clássico “Seven Nation Army” dos White Stripes

Ao longo da atuação posso destacar também alguns momentos que certamente ficaram na memória de todos, como quando no familiar single de 2015 “Ride” chamaram a palco um segurança do recinto para acompanhar o Tyler no refrão e, é claro, o nome “Rui” foi ecoado por todo o recinto, num apoio enorme da multidão à prestação de um segurança do Nos Alive, que num momento diferente e especial – partilhou palco com a banda.

Outro fácil destaque ocorreu na música “Drum Show”, quando Josh Dun cumpriu com o nome do tema ao escalar a lateral do palco e tocar bateria a 20 metros de altura.

Ouvimos também “Drag Path” — o mais recente single que tem explodido pelas redes sociais, ao ser usado milhões de vezes em vídeos no TikTok, e que tem sido também um novo favorito entre os fãs.

É, no entanto, em poucas notas de piano que sabemos que estamos a chegar ao fim. Tyler diz-nos que falta um ultimo tema, e todos os fãs já sabem qual será – há 16 anos que encerram os concertos com “Trees” – um tema do album Vessel, ecoado por uma multidão envolta em felicidade e melancolia – sabe-se que o concerto está a acabar, mas o Tyler e o Josh estão em plataformas seguradas pelos fãs, com tambores entre o público, e o Nos Alive enche-se de confetti vermelho. À despedida, os dois músicos unem-se a meio do palco, fazem uma vénia e despedem-se. 

O Tyler pega pela última vez no microfone e encerra o concerto, com doze simples palavras.

“We’re Twenty One Pilots and so are you! See you next time!”

E assim se fechou um momento especial para todos os presentes. O palco vazio, os conffetis no chão e a multidão a começar a dispersar-se. Vê-se choro, sorrisos, abraços e fotografias — todos querem retirar o máximo do momento, junto de amigos e família.

Às duas da manhã, o cansaço é iminente e para aqueles que retomam dia 10, já se faz tarde. Há quem opine que queria ter tido mais pausas faladas entre músicas ou que queria ter ouvido uma outra música de um dos álbuns — mas ninguém aparenta estar desapontado com a atuação — na minha opinião, a banda conseguiu gerir muitíssimo bem o seu lugar — no final de contas, há uma diferença entre um concerto de nome próprio e o ambiente de um festival. Na minha perspetiva, sinto que conseguiram equilibrar esses dois lados — um concerto que dignifica toda a narrativa que tantos fãs conhecem e uma atuação que deixa qualquer um intrigado e com vontade de conhecer. Não fica qualquer dúvida de que os Twenty One Pilots conseguem entregar uma atuação incrível em todos os aspetos e que conseguem criar um mundo imersivo que nos faz esquecer que estamos num festival, num palco, com milhares de outras pessoas. Desde o guarda-roupa às luzes, à pirotecnia, aos momentos de “escalada” e contacto direto com o público — há algo surpreendente e incrível no momento que conseguem criar. Com tudo isto dito, parece-me óbvio entender este amor e esta fidelidade dos fãs. Quem comprou bilhete para o dia 9 do Nos Alive de 2026 e aguentou até à meia-noite e meia — teve não só um concerto, mas um espetáculo, e certamente se lembrará do fogo, dos fãs e de uma banda que voltou a entregar tudo, em solo português.

De uma adolescente que os viu, em verde e fita amarela, em 2019, para uma adulta a reencontrá-los, de preto e fita vermelha, em 2026, com alguns dos mesmos amigos — o que foi vivido ontem no Nos Alive foi para muitos mais do que um festival. 

Aguardo, como outros tantos, pela próxima vez que poderei voltar a cantar a mil vozes, com malta cheia de fita-cola. 

Até qualquer dia, Tyler e Josh, e até amanhã, Nos Alive!

* fotografias oficiais NOS Alive (@Arlindo Camacho, @Duarte Salgueiro e @Tomicornio) gentilmente cedidas pela organização

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