Duas das almas mais delicadas e exploratórias da música alternativa latino-americana decidiram cruzar caminhos num dos encontros mais naturais do ano. Helado Tropical é o fruto do projeto colaborativo homónimo entre Roberto Carlos Lange (mais conhecido como Helado Negro) e Fabi Reyna (a mente por trás de Reyna Tropical). O disco de estreia combina as raízes equatorianas e mexicanas dos dois artistas e navega com mestria entre o indie-folk, a eletrónica lo-fi e uma estética chillwave envolvente.
O álbum nasceu de sessões de estúdio no espaço de Lange na Carolina do Norte e foi moldado pela utilização de sintetizadores vintage dos anos 80 e caixas de ritmos abafadas, o que cria uma paisagem sónica fluida e sem espinhos. A cumplicidade entre ambos é bonita de se ouvir. Parece até que trabalham juntos há uma vida, o que transforma o projeto num feito comovente, considerando o percurso de Reyna após a trágica perda do seu anterior parceiro musical. O resultado é um trabalho onde o som e as vozes tremulantes se fundem, remetendo em certos momentos para a atmosfera flutuante de uns primeiros tempos dos Beach House.
Ao longo de nove faixas que se entrelaçam de forma quase imperpercetível, com realce para o encadeamento gracioso entre “Luna”, “Sol” e a sincopada “Fluye”, a pressa é intencionalmente ignorada. As canções, como a sensual “El Tiempo” e a minimalista “Sensación” celebram a curiosidade, o afeto e as conexões efémeras das noites de verão. Contudo, o disco também encontra espaço para uma melancolia mais sombria em “Soledad”, com um sintetizador cavernoso, antes de fechar com a cadência noturna e apaziguadora de “Un Calor”.
Helado Tropical é a banda sonora ideal para aqueles dias de calor sufocante em que o tempo parece desacelerar. Leve, subtilmente retro e profundamente aconchegante, o álbum funciona como uma brisa fresca ao fim da tarde, confirmando a química perfeita entre dois criadores únicos do panorama alternativo.











