No ano em que celebra 30 anos de história, a Companhia do Chapitô prepara-se para apresentar “Ensaio sobre a Lucidez”, a sua nova criação coletiva – a 46ª do seu repertório – que estará em cena de 24 de Setembro a 25 de Outubro.
Numa manhã de eleições, acontece o impensável: a esmagadora maioria da população vota em branco.
Não há violência. Não há revolução. Não há abstenção. Há apenas cidadãos que exercem, de forma exemplar, um direito democrático. E é precisamente aí que começa o problema.
José Saramago imaginou o pior pesadelo de qualquer estado: um povo que, cumprindo a lei, deixa de acreditar em quem o governa. O que começa como uma sátira política transforma-se numa inquietante reflexão sobra a fragilidade da democracia, a facilidade com que o medo se instala e a rapidez com que um Estado democrático pode revelar impulsos autoritários.
Enquanto os cidadãos continuam a viver as suas vidas, o governo responde com suspeita, vigilância e violência. Porque talvez exista uma verdade que o poder não quer admitir: um povo que vive em paz por vontade própria torna-se muito mais difícil de governar.
Catalisados pela ironia mordaz, pelo humor e pela extraordinária lucidez de Saramago, lançamo-nos à adaptação de um romance que, duas décadas depois da sua publicação, parece escrito para o presente.
Esta alegoria trata da possibilidade do impossível. Pedimos apenas ao espectador que aceite um pacto: acreditar, por um instante, que isto aconteceu. Porque há ficções que nos obrigam a olhar para a realidade com mais clareza.
E se o maior perigo para um governo não for um povo revoltado, mas um povo lúcido?

* fotografia de João Mendes











