Há exatamente 15 anos, a 23 de julho de 2011, a música perdeu uma das suas vozes mais cruas, genuínas e avassaladoras. Amy Winehouse foi encontrada sem vida na sua casa em Camden Town, aos 27 anos, vítima de envenenamento por álcool após um período de abstinência.
A tragédia do seu fim transformou-a instantaneamente numa lenda melancólica do jazz e do soul moderno. No entanto, a sua verdadeira história continua a ser a de uma artista com um talento raro e inquestionável.
Amy não era apenas uma cantora com um alcance vocal expressivo e um tom de contralto rasgado. Ela era uma compositora real, cujas emoções vinham dos fundos mais reconditos e sombrios da sua alma. As suas influências vinham do jazz clássico de Dinah Washington e Sarah Vaughan, mas também do som das girl groups dos anos 60.
Com o seu álbum de estreia, Frank (2003), mostrou ao mundo uma escrita madura, sarcástica e despida de filtros. Mas foi em 2006, com Back to Black, sob a produção de Mark Ronson e Salaam Remi, que reinventou a música soul para o século XXI. Ela transformou desgostos amorosos em clássicos instantâneos que lhe valeram cinco prémios Grammy numa única noite.
A vida pessoal de Amy foi devastada à vista de todos, alimentada sem escrúpulos pelos tabloides britânicos da época. A sua relação tempestuosa com Blake Fielder-Civil marcou profundamente o seu percurso e inspirou a escuridão lírica de Back to Black. Foi através de Blake que Amy foi introduzida a drogas duras como a heroína, originando uma dinâmica de co-dependência tóxica.
Paralelamente, a relação com o pai, Mitch Winehouse, gerou sempre forte polémica. Questionado pela exposição mediática e pelas decisões em torno da carreira e saúde da filha — imortalizadas no verso “If my dad thinks I’m fine” do tema “Rehab” —, o ambiente familiar acabou exposto no aclamado documentário Amy (2015). A lutar também contra a bulimia desde a adolescência, Amy viu o seu corpo ceder quando o álcool passou a ser o seu principal refúgio.
Nos 15 anos que se seguiram à sua morte, o impacto de Amy Winehouse na indústria manteve-se profundo e visível. A sua ascensão provou às editoras que o público procurava autenticidade e vulnerabilidade, abrindo portas para uma nova vaga de artistas.
Nomes gigantes da música moderna, como Adele, Florence Welch, Lana Del Rey, Sam Smith e Raye, citam abertamente Amy como uma pedra basilar para as suas carreiras. Raye, em particular, resgata essa mesma fusão entre o R&B, o jazz e a escrita confessional desmedida que Amy popularizou.
A forma como a sociedade e a imprensa encaram a saúde mental e as adições dos artistas também mudou muito nestes últimos 15 anos. O escrutínio agressivo que perseguiu Amy nos seus momentos mais vulneráveis é hoje amplamente condenado, servindo como um doloroso lembrete do custo da fama quando falta empatia ao mundo do espetáculo. Amy Winehouse permanece eterna não pelas suas dores, mas porque cantou a sua verdade com uma alma que poucos conseguem igualar.










