Com o novo trabalho Subida Infinita na bagagem e um percurso que redefiniu o indie pop-rock em Portugal nos últimos (já!) quinze anos, os Capitão Fausto preparam o regresso a São Miguel para um dos concertos mais aguardados da edição de 2026 do Azores Burning Summer. No dia 29 de Agosto, a banda lisboeta sobe ao palco da Praia dos Moinhos, no Porto Formoso, partilhando o alinhamento com a experimentação do brasileiro Zé Ibarra e o kuduro eletrónico dos Throes + The Shine, no âmbito da programação da Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura (PDL26).
Nesta entrevista, a banda reflete sobre a relação afetiva e geográfica que mantêm com o arquipélago, o desafio de equilibrar memórias passadas e novas canções no alinhamento ao vivo, e as responsabilidades ecológicas de quem faz da estrada a sua casa. Um diálogo aberto sobre a importância da descentralização cultural, a força da Lusofonia e a forma como o ecossistema único dos Açores potencia encontros artísticos irrepetíveis.
Mente Cultural – Tocar na Praia dos Moinhos, no Porto Formoso, é uma experiência radicalmente diferente do circuito habitual de grandes arenas ou recintos urbanos. De que forma é que o cenário natural e o ambiente não massificado do Azores Burning Summer influenciam a energia e o tom do vosso espetáculo?
Capitão Fausto – Não será a nossa primeira vez, e por isso vamos já sabendo que é um espaço diferente do circuito mais canónico dos concertos. É muito bonito. Esse tipo de ambiente normalmente gera resultados inesperados, onde tanto o público como a banda estão mais desamarrados. Estamos entusiasmados com o regresso!
Mente Cultural – O festival tem como pilar fundador um compromisso ecológico inflexível e o respeito pelo ecossistema insular. Enquanto músicos que passam grande parte do ano na estrada, em digressão, como vêm o papel dos artistas na sensibilização para a pegada carbónica do entretenimento?
Capitão Fausto – No nosso caso tentamos cada vez mais usar menos plástico, e itens recicláveis. Há um lado de andar na estrada, sempre de carrinha, que por si só já é carregado ecologicamente. Tentamos, nos pequenos gestos, que estas pequenas diferenças se tornem em hábitos.
Mente Cultural – O vosso concerto no dia 29 de Agosto traz aos Açores as canções de Subida Infinita, mas também o percurso de discos que marcaram uma geração, como Gazela ou Pesar o Sol. Como é que sentem que a maturidade da banda se traduz hoje ao vivo quando partilham o alinhamento com novos arranjos?
Capitão Fausto – Temos agora o desafio de preparar um concerto que consiga trazer ao público uma amostra da nossa discografia, ao mesmo tempo que tem uma ênfase nos trabalhos mais recentes. Esse diálogo entre passado/ presente é muito estimulante criativamente, pois obriga-nos a relacionar períodos diferentes da nossa carreira uns com os outros. A maturidade talvez esteja na forma como temos vindo a apurar essa simbiose no formato de concerto, que é o momento de comunhão por excelência entre artista e público.
Mente Cultural – A edição de 2026 do festival faz uma celebração muito bonita e plural da Lusofonia, dividindo o cartaz com artistas de Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau e Brasil, como o Zé Ibarra com quem partilham o palco no mesmo dia. Que significado tem para vocês integrar uma celebração lusófona com esta amplitude de diásporas e linguagens?
Capitão Fausto – É sempre maravilhoso partilhar palco com tantos e diferentes artistas. Há uma troca informal de experiência nestes momentos e com estes cruzamentos. Tantas vezes, ao ver concertos de artistas diferentes, levamos para casa novas ideias, novas formas de pensar espetáculos. No caso do Zé Ibarra, demos um concerto juntos em São Paulo, juntamente com o Tim Bernardes, em 2025. Somos fãs do seu trabalho, e o AFIM é um álbum brilhante.
Mente Cultural – Esta edição integra a programação complementar da Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura (PDL26). Para uma banda que sempre valorizou a descentralização da cultura e a criação de laços com públicos de todo o país, quão crucial é ver o arquipélago a afirmar-se como um pólo cultural vibrante no Atlântico?
Capitão Fausto – Na verdade, desde que saiu a Subida Infinita que queremos regressar. E como o Tomás (Wallenstein) tem família em São Miguel, algumas das nossas primeiras viagens em banda, como grupo de jovens amigos, foram aí! Nós não deixamos de ser uma banda da capital. Mesmo que desde cedo tenhamos tido a intenção de chegar a todo o país, não deixamos de ser um produto de uma cidade que tem um tipo de oferta cultural e de oportunidades desigual em relação a outras cidades e regiões do país. A probabilidade de artistas, festivais, clubes terem mais sucesso vindos de Lisboa é mais alta. Há de facto uma desigualdade territorial que dificulta os arranques artísticos, tanto de quem cria como de quem promove. Temos de ser agentes activos nessa mudança, não só a nível cívico, como artístico e político.
No caso dos Açores, a distância atlântica complica ainda mais as coisas. Ainda assim, iniciativas como o Azores Burning Summer, ou como o Tremor, provam que a beleza das ilhas é simbiótica com a atividade artística. E aplaudimos todas estas iniciativas não só de descentralizar como também de providenciar uma oferta cultural diferenciada!

* fotografias de Matilde Travassos










