Reportagem | Rock in Rio Lisboa: Quando ser um ícone é muito mais do que cantar êxitos.

Joana Merlini

Reportagem do concerto de Cyndi Lauper na Cidade do Rock. Um concerto memorável que teve discursos, uma banda feminina e os clássicos da artista.

Há artistas que dão um concerto. Depois há aqueles que fazem uma verdadeira declaração de princípios. Cyndi Lauper pertence, sem dúvida, ao segundo grupo.

Só um verdadeiro ícone consegue abrir um espetáculo na Cidade do Rock com uma simples flauta de bisel… e fazer disso um dos momentos mais cool da noite. Enquanto qualquer outro artista seria recebido com estranheza, Cyndi transforma o inesperado na sua identidade. Aos 73 anos, continua exatamente aquilo que sempre foi: irreverente, imprevisível e profundamente punk.

Essa autenticidade refletiu-se também em palco. Rodeada por uma banda inteiramente composta por mulheres, Cyndi mostrou que o talento não precisa de género para brilhar. A guitarrista Alex Nolan arrancou uma enorme ovação com um solo que levou o público a aplaudir como se fosse a própria Cyndi a cantar. Na linha do baixo, Ganessa James manteve, sempre de sorriso no rosto, o pulso firme de todo o espetáculo. Mona Tavakoli encheu o palco de energia na percussão, enquanto a impressionante baterista Giulliana Merello, que a própria Cyndi fez questão de apresentar ao público, recebeu uma das maiores ovações da noite quando a cantora revelou, entre aplausos, que estava grávida de seis meses. Nem isso a impediu de manter, do primeiro ao último tema, a intensidade e a energia contagiante que marcaram todo o concerto.

O palco tornou-se, assim, muito mais do que um espaço para interpretar êxitos. Tornou-se num manifesto vivo de representatividade, resistência e igualdade.

Num mundo marcado por guerras, intolerância e constantes retrocessos sociais, Cyndi interrompeu o concerto para recordar aquilo que nunca deveria ser preciso reivindicar:

“Women just want fundamental rights.”

Depois, lado a lado com toda a sua banda, ergueu o punho fechado enquanto o ecrã gigante da Cidade do Rock se iluminava com a bandeira Pride.

Foi um daqueles momentos em que um festival deixa de ser apenas um festival. Pelo recinto espalharam-se algumas lágrimas, abraços e uma emoção difícil de descrever. Durante alguns minutos, milhares de pessoas esqueceram as suas diferenças para responder àquela simples afirmação com uma longa salva de palmas. Foi, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes da noite.

Ao som de Time After Time, Cyndi pediu ao público que ligasse as lanternas dos telemóveis e desenhasse pequenos círculos no ar, no sentido dos ponteiros do relógio. Depois pediu-nos apenas uma coisa: que olhássemos em redor.

E olhámos.

Milhares de pequenas luzes iluminavam a Cidade do Rock, lembrando-nos que, apesar de tudo o que acontece lá fora, continuamos a ser capazes de nos reunir para celebrar aquilo que realmente nos une: a música, a empatia e o amor.

O encerramento não podia ter sido mais simbólico. Antes dos primeiros acordes de Girls Just Want to Have Fun, Cyndi prestou homenagem à artista japonesa Yayoi Kusama, de quem confessou ser uma grande admiradora. Ela e toda a banda regressaram ao palco com casacos brancos cobertos pelas icônicas bolas vermelhas que eternizaram a estética da artista, criando um dos momentos visuais mais memoráveis da noite.

Foi o final perfeito para um concerto que nunca viveu apenas da nostalgia. Viveu da coragem de continuar a defender aquilo em que acredita, da liberdade de permanecer fiel a si própria e da certeza de que há artistas que envelhecem… e há ícones que simplesmente continuam a escrever História.

“Foi nesse instante que a Cidade do Rock deixou de ser apenas um festival. Tornou-se um enorme abraço coletivo, onde desconhecidos se emocionaram pelas mesmas razões e onde, por breves minutos, a música voltou a provar que continua a ser uma das formas mais poderosas de resistência.”

* fotografias oficiais do Rock In Rio Lisboa

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