Entrevista | Isabel Coixet: “Quando aceitamos que o tempo não é infinito, deixamos para trás uma maneira de olhar para o mundo.”

Eduardo Marino

Entrevista à realizadora espanhola Isabel Coixet que está de regresso aos cinemas com o comovente 'Três Vezes Adeus', uma adaptação do livro Tre ciotole de Michela Murgia.

Há realizadores que passam a carreira inteira a tentar filmar a morte. Outros preferem filmar aquilo que continua vivo enquanto ela se aproxima. Nesta conversa, Isabel Coixet fala de Três Vezes Adeus como quem fala de pequenas coisas: comida, silêncio, luz a entrar pela janela, café feito para alguém que já não consegue levantar-se. Adaptando o livro de Michela Murgia, a realizadora espanhola regressa a temas que atravessam a sua filmografia — o tempo, a despedida, o corpo — mas sem dramatismos fáceis nem discursos reconfortantes. Pelo meio, fala de Alba Rohrwacher, da herança inevitável de A Minha Vida Sem Mim e da vontade quase política de não transformar a doença num espetáculo miserabilista. “Não queria que as pessoas saíssem do cinema com vontade de se atirar de uma ponte”, diz. E talvez seja esse o melhor resumo possível do filme.

Tre ciotole é um livro muito pessoal de Michela Murgia, escrito a partir da sua própria experiência com a doença. O que foi aquilo que mais a comoveu nesse material e como encontrou o equilíbrio entre respeitar a voz da autora e, ao mesmo tempo, fazer um filme profundamente seu?

O que me comoveu foi o facto de a Michela escrever sem autocomiseração. Há livros sobre a doença que colocam o leitor numa posição desconfortável de espectador obrigado ao luto. Tre ciotole não. A Michela escreve a partir de uma lucidez quase insolente, até com humor, e isso, para mim, é a coisa mais generosa que se pode fazer com um leitor. O equilíbrio com a minha voz não foi uma coisa que procurei — apareceu no ponto em que a escrita dela e a minha forma de olhar coincidiam, que é esse território onde o trágico entra pelas fissuras do quotidiano. Não quis fazer um filme “sobre Murgia”. Quis fazer um filme que ela, se o visse, reconhecesse como uma conversa.

Embora Três Vezes Adeus fale de uma separação e de uma doença grave, o filme transmite uma sensação de luminosidade e de reconciliação com a vida. Já disse que não lhe interessa “amargar a vida ao espectador”. Era importante que a história acabasse por ser, acima de tudo, uma celebração do quotidiano?

Olhe, tenho plena consciência do tipo de cinema que se tem feito ultimamente sobre a doença: duas horas de penumbra, planos de hospital e depois um pouco de redenção lacrimosa no final. Não suporto isso. A vida, mesmo quando está a acabar, tem luz, tem refeições que sabem bem, tem dias em que o sol entra pela janela e nos faz sentir bem sem motivo nenhum. Negar isso parece-me uma falta de respeito para com as pessoas que estão realmente a passar por algo assim. Não queria fazer um filme celebratório de forma ingénua — isso seria igualmente falso —, mas queria que, quando alguém saísse da sala, não tivesse vontade de se atirar de uma ponte, mas talvez de telefonar à mãe. Ou de fazer um prato de massa.

Alba Rohrwacher constrói uma personagem muito contida, quase hermética, mas ao mesmo tempo profundamente emotiva. O que encontrou nela para interpretar Marta e como trabalharam juntas essa mistura de fragilidade e resistência?

A Alba tem uma coisa raríssima, que é a capacidade de estar a dizer cinco coisas ao mesmo tempo com a cara imóvel. Há atrizes que precisam de gesticular para encher o plano; ela faz o contrário, obriga-nos a inclinarmo-nos para ela. Para a Marta, que é uma personagem que se recolhe, que se vai fechando para dentro, isso era exatamente o que eu precisava. Trabalhámos muito sobre aquilo que Marta não diz. Sobre o que cala com a irmã, com Antonio, com os médicos. A Alba percebeu imediatamente que, neste caso, fragilidade e resistência não são pólos opostos, mas a mesma coisa vista de dois ângulos. Uma mulher que está doente e que, ainda assim, decide como quer viver o tempo que lhe resta — isso é resistência pura. E a Alba traz isso sem nunca o sublinhar.

O título sugere que na vida não existe apenas um adeus, mas várias despedidas: de uma relação, de uma versão de nós próprios, até de certas certezas. Quais acha que são os três adeuses que Marta atravessa ao longo do filme?

Não quero fechar demasiado a leitura, porque cada espectador encontrará os seus próprios adeuses. Mas, se me obriga: o primeiro é a Antonio, a uma forma de amar e de ser amada que já não funciona. O segundo é a uma ideia de si própria — a Marta que dava o futuro como garantido, a que fazia planos a cinco anos. Essa Marta também desaparece, e esse luto é talvez o mais íntimo. E o terceiro, o mais difícil de nomear, é a uma certa inocência em relação ao tempo. Quando aceitamos que o tempo não é infinito, deixamos para trás uma maneira de olhar para o mundo. Não é necessariamente triste — pode até ser libertador —, mas é um adeus.

Já tinha abordado a relação entre a doença e a vontade de viver em filmes como A Minha Vida Sem Mim. Sente que Três Vezes Adeus dialoga com esse filme, ou acha que hoje o seu olhar sobre a morte e o tempo é diferente?

Claro que há diálogo, seria absurdo negá-lo. Há um fio entre os dois filmes, tal como há um fio entre todos os filmes que fazemos, mesmo sem o planearmos. Mas o meu olhar hoje é diferente, inevitavelmente. Quando fiz A Minha Vida Sem Mim tinha outra idade, outra forma de pensar a morte — mais abstrata, quase mais literária. Agora já vi morrer pessoas de quem gostava. Já acompanhei. Já fiz café para alguém que já não o conseguia fazer sozinho. Isso muda o cinema que fazemos, porque muda aquilo que sabemos. Três Vezes Adeus não é mais sábio do que A Minha Vida Sem Mim, mas foi feito por alguém que viveu mais coisas. Espero que isso se note não na solenidade, mas numa certa calma. Em aceitar que não há respostas, e que isso também está bem.

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