Us V. Them: The Age of Indie Music and a Decade in New York

Francisco Pereira

Ronen Givony

Edição: março 2026

Na sequência de obras que mapeiam a evolução da música alternativa e o seu impacto cultural, Us V. Them: The Age of Indie Music and a Decade in New York (2004-2014), de Ronen Givony, surge como uma cronologia essencial e sem rodeios sobre o auge e a queda da cena indie em Brooklyn. Publicado pela Abrams Books, o livro junta-se a referências como Just Kids e Our Band Could Be Your Life ao documentar a geração de artistas que transformou a zona pós-industrial de Williamsburg num epicentro vanguardista.

Como produtor de concertos e programador do Le Poisson Rouge e da série Wordless Music, Givony viveu esse período na primeira linha. Em vez de se focar exclusivamente nos nomes que atingiram o sucesso comercial global — como os Animal Collective, Grizzly Bear ou The National —, o autor opta por dar voz ao tecido subterrâneo da cena. A narrativa abre com os veteranos do noise rock Oneida e resgata bandas como os Sea Ray ou os Parts & Labor, grupos que definiam o som real dos bares e salas DIY (Do It Yourself) da época, mas que acabaram por se dissolver antes de alcançarem o grande público.

A obra não se limita à nostalgia e recusa uma visão puramente romântica da década. Givony aborda com rigor as contradições políticas, económicas e sociais do ecossistema de Brooklyn sob a administração do presidente da câmara Michael Bloomberg. Através de entrevistas com músicos, editores e jornalistas de plataformas como a Pitchfork e a Vice, o livro expõe questões de discriminação racial enfrentadas por bandas integradas por músicos negros — como os Dragons of Zynth —, episódios de chauvinismo no circuito noise, a gentrificação acelerada e a transição do termo indie de um movimento ético para uma mera estratégia de marketing.

Ao longo das suas páginas, o autor traça também a história dos espaços e das infraestruturas financeiras que sustentaram essa explosão criativa. Espaços icónicos como o Death By Audio, Glasslands, 285 Kent ou Shea Stadium servem de pano de fundo para uma reflexão sobre o impacto do encerramento dessas salas e o papel do patrocínio corporativo numa indústria pós-Napster. Us V. Them afirma-se, assim, como uma análise crítica e um retrato documental sobre o que significou fazer arte de forma independente numa cidade em rápida transformação económica.

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