Edição: Maio 2021
Seth Rogen é aquele tipo de figura que quase todo mundo sente que conhece. Seja através dos seus papéis em comédias marcantes ou das suas entrevistas descontraídas, ele criou uma persona pública que parece, acima de tudo, autêntica. Quando ele decidiu lançar Yearbook, um livro de memórias que foge ao formato tradicional, a pergunta natural era: o que ainda não sabemos sobre ele?
O livro não é uma biografia cronológica e arrumada. É uma coleção de ensaios e histórias reais que, como o próprio Rogen admite, ele espera que sejam “engraçadas na pior das hipóteses, e incrivelmente transformadoras na melhor”. Yearbook é, essencialmente, uma viagem pelos bastidores da vida de um homem que transformou a sua juventude canadiana e a sua paixão pela comédia numa carreira de sucesso improvável em Hollywood.
Um dos pontos mais notáveis de Yearbook é a imersão. Rogen escreve exatamente como fala. Após apenas alguns parágrafos, é impossível não ouvir a voz do autor na sua cabeça, com a sua cadência característica e o tom sarcástico que já lhe conhecemos. Essa informalidade cria uma imediatez que torna a leitura ágil e envolvente, como se estivéssemos numa conversa de bar, e não a ler um livro de capa dura.
O livro explora temas variados: desde as suas raízes numa comunidade judaica no Canadá, as histórias da infância, os campos de férias e o início frustrado na stand-up comedy, até às suas aventuras surreais em Los Angeles. Rogen não se poupa ao falar sobre o uso de substâncias, algo que, como ele próprio nota, provavelmente deixaria a sua mãe pouco satisfeita, mas que faz parte integrante da sua narrativa pessoal.
No entanto, Yearbook gera uma dicotomia interessante. Por um lado, Rogen é um contador de histórias brilhante, capaz de transformar um encontro embaraçoso com uma celebridade ou um desastre nos bastidores de um filme numa narrativa hilariante. Por outro, como acontece com muitos livros de figuras públicas, há uma barreira invisível.
Existem momentos de vulnerabilidade real — quando Rogen toca na influência dos avós, dos pais ou na sua saúde mental — que nos mostram uma profundidade que a comédia superficial, por vezes, mascara. Existe uma escolha consciente, talvez necessária para quem vive sob o escrutínio constante da fama, de manter as coisas “pessoais, mas impessoais”.












