Black Sea Dahu – Everything (2026)

Francisco Pereira

"Everything", o terceiro álbum dos Black Sea Dahu é um disco profundo sobre o luto que funde indie-folk com arranjos cinematográficos.

Para os Black Sea Dahu, o seu terceiro capítulo, Everything, editado em fevereiro, não foi apenas um processo de composição, mas sim a construção de um refúgio. Após oito anos de um percurso ascendente na cena indie europeia, marcado pelo sucesso de “In Case I Fall for You” e pela reputação de serem trabalhadores incansáveis da estrada, as irmãs Janine e Vera Cathrein viram-se perante o abismo da perda do pai. E neste refúgio, avisamos: este não é um disco de audição fácil. É uma obra de artesanato humano raro, onde a dor para além de exposta, é também transformada num lugar de conforto e renascimento.

O contexto de criação de Everything afasta-se dos estúdios profissionais e das pressões urbanas. A banda isolou-se numa casa remota nos Alpes suíços (país de onde são), em Flims, transformando a sala de estar num estúdio improvisado rodeado por uma floresta que, segundo Janine, parecia observar o processo. Entre sessões de gravação ao vivo que procuravam a “magia da imperfeição” e a ajuda dos produtores Gavin Gardiner e Paul Märki, o grupo funcionou como um organismo vivo. A cumplicidade quase telepática da banda, calejada em anos de digressões ininterruptas, permitiu que as canções respirassem com uma honestidade desarmante, misturando a frescura do ar das montanhas com um calor mediterrâneo inesperado.

O álbum move-se entre o minimalismo de uma voz e guitarra e a opulência cinematográfica de arranjos de cordas e sopros que surgem como frentes frias em mudança. Há uma vulnerabilidade constante que une as oito faixas, onde os temas como a identidade de género, o luto e a resiliência são abordados de forma despojada. “One Day Will Be All I Have” é descrita como a ferida aberta pela ausência e depois “The Dragon” surge como a cicatriz e o ponto central do disco. É um autêntico feitiço sonoro sobre a violência do crescimento e a capacidade de voltar a construir depois da destruição.

Pensando bem, Everything acaba por ser um documento sobre ciclos: a vida que insiste em pulsar mesmo quando o mundo parece parar. É um disco que exige ser ouvido com o coração e com a pele, e que nos mostra que os Black Sea Dahu atingiram uma maturidade onde o som se torna silêncio e o silêncio volta a ser canção. Como Janine Cathrein refere, a música acaba por ser a única companhia que consegue acompanhar o passo irregular do luto, resultando num tesouro musical que, tal como o melhor blues, consegue arrancar beleza e elevação à melancolia mais profunda.

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