Entrevista | Ana Pinto Coelho: Festival Mental celebra 10 anos a pôr a saúde mental no centro da cultura.

Eduardo Marino

Durante muito tempo, a saúde mental foi território de silêncio, desconforto e afastamento. Dez anos depois, o Festival Mental não só ajudou a trazer o tema para o centro da conversa como continua a insistir numa ideia simples: falar não chega. Não perca a entrevista que publicamos com Ana Pinto Coelho, diretora do Festival Mental.

Durante muito tempo, a saúde mental foi um tema remetido para o silêncio, envolto em preconceitos e desconforto. Uma década depois, o Festival Mental – Cinema, Artes e Informação consolidou-se como um projeto pioneiro em Portugal, provando que a cultura pode ser uma ferramenta poderosa para promover literacia, combater o estigma e abrir espaço a conversas mais informadas e humanas.

A celebrar a sua 10.ª edição, o Festival Mental regressa a Lisboa entre 14 e 17 de maio, com programação distribuída por vários espaços da cidade, como o Cinema São Jorge e a Quinta das Conchas. Ao longo destes dez anos, o evento tem acompanhado a evolução do discurso público sobre saúde mental, antecipando temas como a ecoansiedade, o burnout e os efeitos da hiperconectividade muito antes de estes entrarem definitivamente no debate mediático.

Este ano, o festival assume-se como um verdadeiro “radar”, revisitando os temas, vozes e momentos que marcaram as edições anteriores, enquanto projeta os desafios do futuro.

A principal novidade desta edição comemorativa acontece logo a 12 de maio, com o M-Play, um desfile de rua que leva o festival para fora das salas e diretamente ao encontro da cidade. A partir das 12h30, artistas do Chapitô — entre acrobatas, malabaristas e monociclistas em andas — percorrem Lisboa numa performance que celebra o equilíbrio, a vulnerabilidade e a força coletiva.

A ideia é simples, mas eficaz: interromper a rotina e lembrar, de forma silenciosa e poética, que ninguém caminha sozinho.

Uma das marcas do Festival Mental é a sua abrangência intergeracional. A edição de 2026 volta a oferecer atividades para diferentes idades e públicos, dos mais novos aos seniores.

No segmento M-Natura, a relação entre saúde mental e natureza ganha destaque. A 15 de maio, a Quinta das Conchas recebe o workshop infantil “Floresta: Ecossistema e Habitat”, orientado por Conceição Colaço, Maria João Vieira e Tiago Reis. Através de jogos e atividades sensoriais, as crianças são convidadas a explorar o território e a desenvolver competências de cooperação e literacia ambiental.

Ainda no âmbito do M-Natura, o documentário Malcata – Conto de Uma Serra Solitária será exibido a 17 de maio no Cinema São Jorge, seguido de uma conversa com os realizadores.

O teatro continua igualmente a ter um papel central com “Contrabandistas de Comemorações (esquecidas?)”, criação do Grupo de Teatro Terapêutico W+, da Unidade de Saúde W+ da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Já o segmento M-Senior propõe o workshop “Idade Não É Prazo de Validade”, conduzido por Mafalda Sacchetti, dedicado a temas como a solidão, a ansiedade e a depressão na terceira idade.

O cinema continua a ser o eixo estruturante do festival, através da Mostra Internacional de Curtas-Metragens (M-Cinema), que reúne uma seleção de obras internacionais centradas em temas de saúde mental.

A programação inclui ainda as M-Talks, que nesta edição revisitam o caminho percorrido ao longo da última década, reunindo convidados de várias áreas para refletir sobre o que mudou na forma como falamos de saúde mental.

O M-Click volta a abrir espaço para projetos emergentes que cruzam ciência, criatividade e intervenção social.

E um dos momentos mais aguardados é o My Story, My Song, formato que convida artistas a partilhar episódios mais vulneráveis das suas vidas através da música. Este ano, a convidada é Maria João, acompanhada pelo músico e produtor João Farinha.

Entrevista com Ana Pinto Coelho, diretora do Festival Mental

Ao fim de 10 edições, o que é que mudou mais: o festival ou a forma como Portugal fala de saúde mental?

A forma como falamos de saúde mental mudou claramente — sobretudo depois da pandemia. Há um antes e um depois. O festival, naquilo que são os seus objetivos, não mudou assim tanto. Desde o início que se mantém focado na promoção, prevenção e combate ao estigma e à iliteracia em saúde mental, sempre através da cultura, que é o nosso principal meio para abordar estes temas.


Quando o festival surgiu, em 2017, o tema era mais marginal. Hoje sentem que estão dentro de uma tendência?

Não diria que é uma tendência. Talvez tenha sido mais logo após a pandemia. No início, o próprio nome “festival de saúde mental” soava estranho. Para a área da saúde, parecia quase uma ofensa — como se estivéssemos a brincar com algo sério. Para a cultura, também não fazia sentido, porque era visto como um tema clínico, distante. Mas sempre acreditámos neste cruzamento. E não estamos sozinhos — existem vários festivais na Europa e no mundo que ligam arte e saúde mental, embora muitas vezes mais ligados a contextos clínicos. O nosso distingue-se por ser pensado para o público em geral.


Como é que evitam transformar a saúde mental num “produto cultural” consumível?

A questão é que este é um festival como outros festivais temáticos. Curiosamente, quando o tema é saúde mental, essa dúvida surge mais. Ao longo dos anos, reparei que muitas vezes a comunicação social se foca apenas na componente clínica — ansiedade, burnout, estigma — e esquece a programação cultural. Mas este é, antes de mais, um festival de cultura que cruza várias disciplinas. A saúde mental é o eixo, mas não reduz o festival a isso.


Esse cruzamento entre disciplinas surgiu de forma natural ou estratégica?

Veio de uma inspiração muito concreta: o Scottish Mental Health Arts and Film Festival, que conheci em 2016. O meu próprio percurso também influenciou isso. Trabalhei durante 24 anos na área da cultura e, a certa altura, transitei para a área da saúde mental. Este festival acaba por juntar tudo isso. Antes de avançar, quis perceber se este modelo tinha impacto real. Falei com a equipa do festival na Escócia e eles já tinham dados que comprovavam a eficácia. Isso deu-me segurança para avançar — mas criando algo com ADN português, não uma cópia.


Como é feita a seleção dos filmes?

Abrimos uma open call e recebemos curtas-metragens com o tema geral da saúde mental — sem subtemas impostos. Depois, a seleção é feita por uma equipa que cruza duas áreas: cinema e psicologia. Cada elemento vê os filmes de forma independente e, no final, há uma decisão conjunta. Há aqui um duplo critério: qualidade artística e validação científica. Não basta ser um bom filme — é preciso garantir que o conteúdo faz sentido do ponto de vista clínico


Ao longo dos anos, houve momentos particularmente marcantes?

Houve vários. Muitos ligados a temas que ainda não estavam no debate público. Lembro-me, por exemplo, quando abordámos a ecoansiedade — na altura quase ninguém levava o tema a sério. Hoje sabemos que tem um impacto real, sobretudo nos jovens. O mesmo aconteceu com outros temas que fomos introduzindo antes de se tornarem mais discutidos.


Que temas são hoje mais centrais?

Diria que o burnout é um dos mais presentes. A depressão e a ansiedade também são mais faladas, sobretudo em meios urbanos. Mas é importante perceber que isso não acontece de forma uniforme no país. Há diferenças muito grandes entre regiões — em alguns contextos, o estigma ainda é bastante forte.


Que público ainda falta alcançar?

Ainda estamos longe de chegar a todo o público que gostaríamos. Uma das ambições é levar o festival para fora de Lisboa, de forma consistente — não como evento pontual, mas com continuidade, para criar relação com as comunidades. Este tipo de trabalho exige tempo e repetição. Não basta ir uma vez.


Existem diferenças geracionais na forma como o tema é recebido?

Sim, claramente. Com públicos mais jovens, percebemos que o formato tem de ser mais prático e experiencial — por exemplo, workshops ou atividades na natureza funcionam melhor do que apenas ver filmes. Com públicos sénior, o trabalho passa mais por reflexão e partilha. Cada geração exige uma abordagem diferente.


O que falta ainda fazer no futuro do festival?

Expandir territorialmente é um dos grandes objetivos. Mas acima de tudo, continuar este trabalho de consistência: regressar aos mesmos locais, criar relação, combater preconceitos e mostrar que falar de saúde mental não é pesado nem distante — é algo próximo, humano e necessário.


Que destaques faz desta edição?

Destaco o “My Story, My Song”, que este ano conta com a Maria João. Não é um concerto, é um momento de partilha pessoal através da música — e isso cria uma ligação muito forte com o público. No geral, será uma edição de celebração dos 10 anos, mas também de reflexão: revisitar temas e perceber o que mudou — ou não — ao longo do tempo.

Numa altura em que o tema ganhou espaço público — e até alguma banalização —, o Festival Mental mantém-se fiel ao seu ponto de partida: usar a cultura como lugar de encontro, desconstrução e pensamento crítico. Dez edições depois, mais do que acompanhar a conversa, continua a tentar afiná-la — com mais profundidade, mais contexto e menos ruído.

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